Mania de perfeição

Mania de perfeição

Enquanto a pequena Gabriela Oizumi, de 10 anos, frequentava as aulas de patinação, ela não admitia errar passos e saltos mais difíceis. Durante as apresentações ou mesmo nas aulas, o figurino tinha que ser perfeito. Maquiagem e coque bem feitos e os patins sempre em ordem.

O interesse pelo esporte veio por acaso. Aos sete anos, depois de assistir a uma apresentação, a mãe Daniela Soares, perguntou: Você quer participar? Logo no início, Daniela e a professora já percebiam que Gabi era bastante disciplinada e poderia se tornar uma atleta profissional. “Minha filha não se conformava em cair da forma errada após executar o passo, mesmo assim ela continuava em frente e tinha vontade seguir uma carreira”, conta.

A mãe não media esforços para bancar as viagens e competições da filha. Sempre presente, ela vendia rifas e chocolates com as outras mães e se apaixonou pelo universo da patinação. “Aquilo começou a fazer parte da minha rotina. Trabalho fora e já me programava para isso. Adorava assistir às apresentações, me encantava!”, diz.

Depois de três anos, Gabriela chegou um dia e, para a tristeza de Daniela, disse que não iria mais patinar. Entre várias conversas com a mãe e a professora, ela insistia em parar e até havia concordado em vender os patins.

Apesar de não ter um motivo aparente, Daniela acredita que a proposta de mudar de classe para outra mais avançada, pois Gabriela já havia alcançado um nível superior para a sua idade, deixou Gabi com receio de que ela não conseguisse executar os passos perfeitamente, e por isso, ela preferiu não arriscar.

Na opinião da psicóloga Silvana Martani, especialista em atendimento psicoterápico de adolescentes, isso pode ser indícios da chamada mania de perfeição, que esconde outros sentimentos, o de ser rejeitada e perder o amor dos pais caso aconteça o erro. “Na maioria dos casos, o próprio grupo familiar faz isso sem querer. Elogia muito quando a criança consegue algo e, conseqüentemente, ela acha que é amada apenas se fizer tudo certinho”, explica.

Apesar de Daniela deixar claro que o amor dela é o mesmo e independe das ações da filha, ainda assim, Gabriela demonstra que pode ter mania de perfeição. Conforme a psicóloga isso são apenas sinais, mas ainda não está constatada a mania em si.

Para evitar que isso ocorra, ela dá algumas dicas aos pais. A primeira delas é deixar claro que falhar é humano e também não enfatizar a mania do filho dizendo que realmente ele errou. Nessa hora, o bom-humor é sempre bem-vindo. É interessante mostrar exemplos de coisas engraçadas da infância dos pais e falar que os colegas também não acertam sempre.


“Também ter bom senso, ou seja, não apontar demais os erros, nem elogiar ao extremo quando ela acertar. Deve haver um equilíbrio entre elogios e broncas”, explica a psicóloga autora dos livros Manual Teen e Viagem pela Puberdade.

Diferente de Gabi, outras crianças e adolescentes acabam desenvolvendo a mania. Quando o filho fica apenas chateado com erro ou mesmo percebe que as coisas não estão em ordem, tudo bem, o problema é se ele tem acesso de raiva ou fica frustrado por isso.

“Aí sim é hora de procurar um profissional, pois no futuro, essa criança poderá desenvolver quadros de depressão ou até TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo)”, finaliza.

Por Juliana Lopes

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