Mães da Sé - corações a postos

Mães da Sé na Praça da Sé SP

Mães da Sé na Praça da Sé (SP)

A música de Chico Buarque traduz claramente o sentimento de um pai que perdeu um filho: “Oh pedaço de mim, oh metade amputada de mim, a saudade é o pior tormento”. Mesmo que a letra trate de um filho que faleceu, vale também para ilustrar a saudade daquele que simplesmente (e inexplicavelmente) desapareceu.

Com o constante sentimento de dúvida, a falta dos filhos que sumiram cria uma sensação de impotência sem tamanho. E, pior, abre um espaço enorme no ninho. Com ele vazio, é preciso encontrar força para continuar. Como o problema não se trata de caso isolado - e sim assola toda a sociedade - é preciso se unir com quem passa pelo mesmo dilema e transformar saudade em alavanca de um movimento social. É o caso da Associação Brasileira de Busca e Defesa de Crianças Desaparecidas (ABCD), também conhecida como “Mães da Sé”.

A iniciativa surgiu em um encontro de mães de pessoas desaparecidas que aconteceu em 1996, para as gravações da novela “Explode Coração”, da Rede Globo. A trama de Glória Perez abordava a realidade de famílias que possuem entes desaparecidos. Nela, as mães tinham a oportunidade de expor seu caso em rede nacional e divulgar a imagem do filho desaparecido.

Ivanise Esperidião da Silva participava das gravações e, por lá, acabou conhecendo mulheres que faziam parte do grupo “Mães da Cinelândia”, do Rio de Janeiro e do “Movimento Nacional em Defesa das Crianças Desaparecidas”, no Paraná. Ambos atuavam na divulgação de casos de pessoas desaparecidas no país. Como esse tipo de trabalho era desenvolvido apenas nos dois estados - e o problema já era de âmbito nacional - Ivanise decidiu criar a instituição em São Paulo e, incentivada pela iniciativa das outras mães, fundou a ABCD. A filha dela havia desaparecido há pouco tempo.

No intuito de expandir a divulgação da imagem das pessoas desaparecidas, as mães passaram a se reunir na escadaria da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Com cartazes feitos à mão, as mães se encontram sempre no segundo domingo do mês para expor as fotos de seus filhos. “Foi assim que passamos a ser conhecidas como as ‘Mães da Sé’. Escolhi a escadaria por ser um marco de diversas lutas sociais. Essa é mais uma”, desabafa Ivanise, hoje presidente da ABCD.

Mães da Sé

Mães da Sé / divulgação

Quando sua filha desapareceu, em 1996, ela chegou ao limite da loucura e vivia sua dor de maneira isolada. Com a ONG, encontra e oferece suporte às famílias que sofrem do mesmo mal. Na instituição, os profissionais voluntários se encarregam de orientar às famílias quanto aos procedimentos, como acompanhar às investigações e colaborar com a polícia. Na ONG é possível ainda encontrar assessoria jurídica e acompanhamento psicológico.

Desde que foi criada, as ‘Mães da Sé cadastraram mais de 5 mil casos, com cerca de 15% solucionados. “Em um deles, um pai levou o filho embora e a mãe ficou por 16 anos procurando. Consegui descobrir o telefone desse menino e entrei em contato. Em novembro do ano passado, ele e a mãe se encontraram novamente”. Os dois moravam em bairros vizinhos e, não fosse o trabalho da ONG, talvez não tivessem se encontrado.

Segundo a Delegacia de Pessoas Desaparecidas do Estado de São Paulo, ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), uma média de 60 casos de desaparecimento é registrada diariamente na capital paulista - e cerca de 200 mil por ano no país. Ivanise explica entre as causas dos desaparecimentos estão as crianças que fogem de casa, por viverem em meio a conflitos, as que se perdem em grandes cidades, além de crimes de prostituição infantil, tráfico de seres humanos, tráfico de drogas e de órgãos. Para ela, um jeito simples de agir é a criação de um ‘cadastro de pessoas desaparecidas’, por parte do governo, que deveria mantê-lo atualizado e disponível aos órgãos públicos e entidades privadas que atuam na localização de pessoas.

Mesmo com a situação atuante da ABCD, muita coisa ainda precisa ser feita. Mas para Ivanise, mais do que cadastros e atuação da polícia, é essencial que as mães não percam a esperança. Ela compartilha da dor de ter uma filha desaparecida há 13 anos. E, assim como milhares de outras mães, vê uma cadeira vazia na hora do café da manhã e a cama arrumada sem ninguém para deitar na hora de dormir. “Eu acho que minha filha está viva e tenho esperança de vê-la novamente”.

Por Cínthya Dávila (MBPress)

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