Mães adotivas, sem preconceito

Mãe adotivas sem preconceito

Fabiana Arantes Campos Gadelha, de 33 anos, é a prova de que amor de mãe não escolhe cor nem idade. Mãe biológica de Valentina, de quatro anos, ela também se tornou a referência de maternidade para Miguel, de dois anos, portador de Síndrome de Down, e Arthur, uma criança negra de um ano.

"A vontade de adotar nasceu ainda na adolescência, durante uma visita a um abrigo. Eu imaginava que não iria casar, mas com certeza adotaria uma criança. Mais tarde, eu me casei e essa decisão foi fortalecida, porque ele também sonhava em ser pai pela adoção", conta Fabiana.

Nem tudo deu certo logo no começo. Ela e o marido ingressaram na habilitação para adoção quando quiseram formalizar a guarda de uma criança que já cuidavam. Paulinho, de três anos, tinha leucemia e fora abandonado pela família. O processo foi concluído, mas ao buscá-lo, ele faleceu. Fabiana conta que a perda prematura foi muito sofrida, já que todo o amor já estava sendo construído.

A mãe de Valentina, Miguel e Arthur relembra: "O tempo passou e amadurecemos a ideia de flexibilizar o perfil. Depois de conhecer algumas histórias de adoção especial, concluímos que abriríamos o perfil para crianças com deficiências mentais. Em três meses recebemos notícias do Miguel, na época com nove meses, com Síndrome de Down. A decisão foi imediata: Ele era nosso filho".

Arthur, o caçula da família, ainda está em processo de guarda. Fabiana revela que nunca se importou com as semelhanças físicas. Tanto ela quanto o marido são brancos, mas isso nunca foi um empecilho para que adotassem uma criança negra.

"O Miguel é bem mais claro e ninguém duvida que é nosso filho biológico, quando sabem que não é ficam perplexos. Bobagem! Nós poderíamos ter uma criança com Síndrome de Down naturalmente, então, por que não adotar?", questiona.

Fabiana revela que a convivência em casa é maravilhosa, com regras, exigências, carinho, amor, mimos, choros e muita mamadeira. Valentina, filha biológica do casal, tem o mesmo zelo e educação que os irmãos. "O amor nasce aos pouquinhos, vai entrando no dia a dia, aparece conforme você tem mais intimidade, mais contato, mais vivência", acrescenta.

Para quem quer adotar uma criança, ela dá a dica: "É preciso saber esperar. Para ser mãe e pai, basta receber o filho, a filha ou os filhos que a vida mandar, seja pela barriga ou pela mão da justiça".

"Não importa o tempo, a idade, a cor, as condições de saúde, o gênero, as limitações ou as mil coisas engraçadas que só um filho é capaz de fazer. Saber esperar ser mãe e pai é tão maravilhoso, que qualquer angústia, medo e insegurança desaparecem quando vemos o brilho dos olhos da criança cruzando os nossos, a sua mão fria tocar a nossa, um abraço vazio encontrar o nosso abraço cheio de amor contido", finaliza Fabiana.

Adoção por cor e idade

Apesar dos avanços em relação à adoção, algumas características como a idade e cor da criança ou adolescente ainda são um grande impasse na hora da escolha.

Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), existem 4.427 crianças e adolescentes inscritas no Cadastro Nacional de Adoção. Dentre elas, 33,86% são brancas, 19,11% são negras, 0,54% amarelas, 45,74% pardas e 0,75% indígenas.

O problema se encontra na distribuição em relação à preferência dos pais na hora de adotar. Quanto à cor, 37,94% somente adotam crianças brancas, 2,1% negras, 1,29% amarelas, 5,90% pardas e 1,28% indígenas. A diferença também acontece quando o assunto é idade: 75% dos pais preferem as crianças de até três anos para adotar.

Segundo Soraya Pereira, Presidente do Projeto Aconchego, existe a falsa ideia de que cuidar de bebês é mais fácil, porque será possível moldar desde cedo. "Isso não é verdade, afinal, todos os pais terão problemas com os filhos e deverão ser firmes na educação, independente da idade e se são ou não biológicos", afirma.


"Acredito que seja algo natural, porque as pessoas querem imitar o que a biologia negou. Os pais preferem adotar uma criança que seja semelhante a eles, porque assim ninguém fica perguntando se é ou não biológico. Sobre a idade, acredito que os pais têm medo de que crianças maiores não se adaptem", analisa Maria Bárbara Toledo, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio a Adoção.

Por Carolina Pain (MBPress)

Comente

Assuntos relacionados: crianças mãe