Mãe de Victor Hugo luta pela redução da maioridade penal

Mãe de Victor Hugo luta pela redução da maioridade

Foto Tetra Images/Corbis

A morte do jovem Victor Hugo Deppman fez com que a sociedade levantasse novamente a bandeira pela redução da maioridade penal. O rapaz de 19 anos levou um tiro na cabeça na porta de casa após ser abordado por um bandido que completou 18 anos dias depois do ocorrido. Victor entregou o celular e não reagiu. Mesmo assim foi baleado.

A mãe de Victor, a advogada trabalhista Marisa Riello Deppman, está na luta por essa mudança na lei. Ela, o pai e o irmão do rapaz estão mobilizando parentes, amigos e a população em geral. "Temos a campanha no Facebook chamada Acorda Brasil. Nessa página a pessoa tira foto segurando um cartaz com a frase ‘Se o crime não tem idade por que a punição teria?’ e posta no Facebook, no Instagram ou no Twitter com a hashtag #acordabrasil. Até jovens de fora do país postaram uma foto com a frase em inglês", conta.

Marisa diz que alguns políticos estão apoiando a causa. Inclusive no final desse mês haverá uma audiência pública em Brasília para discutir o assunto na Comissão de Direitos Humanos. A mãe de Victor marcará presença. "O que me motiva é fazer com que outra mãe não passe pelo que eu passei, pelo que minha família passou. Que a morte de jovens como meu filho não seja em vão. O fato de ser advogada faz com que eu entenda os trâmites e tenha mais argumentos nos embates, mas sei que não é fácil uma mudança nas leis. É um trabalho de formiguinha."

Sempre que acontece uma tragédia como essa, a revolta toma conta da população, que sai às ruas pedindo justiça. Porém, com o tempo, as pessoas vão retomando suas rotinas, deixando a luta de lado. Prevendo isso, Marisa pensa numa estratégia. "A gente tem que tentar se manter na mídia por mais tempo. O calor da emoção e o fato sendo divulgado na mídia ajuda a fortalecer a campanha", diz. "Se não fizermos nada movidos pela emoção, seremos movidos pelo quê?"

A advogada aproveita para criticar a inércia dos políticos, alegando que eles deveriam fazer essa mudança, mas, infelizmente, lembra que o atual partido que está no poder historicamente é contra qualquer mudança na maioridade penal e no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). "É muito difícil brigar com quem está no poder, mas não vamos desistir. Estou o tempo todo cobrando. Nossos governantes, deputados e senadores foram eleitos pelo povo e para o povo, fomos nós que os colocamos lá!"

Para os que pensam que uma possível redução na maioridade penal pode gerar mais violência, Marisa rebate, alegando que a violência já está aí, como uma fratura exposta. E cita como exemplos o do próprio Victor Hugo, da dentista de São Bernardo do Campo, do motoqueiro dono de uma academia em São Paulo e da menina que foi defender o pai numa pizzaria e foi baleada, em Goiás. "Quando o país se chocou com a morte da jovem Liana Friedenbach, em 2003, houve uma mobilização pedindo uma mudança na lei de redução da maioridade penal. Já passaram 10 anos e não se fez nada", lamenta.

E completa: "Essa história de que a cadeia é escola de bandido para o jovem é mentira! Os bandidos já estão criados. A mudança na lei serviria de ferramenta para fazer com que esses jovens pensassem duas vezes antes de cometer um crime. Eu me pergunto: se o bandido que matou o meu filho soubesse que, em vez de cumprir uma medida socioeducativa de três anos cumpriria uma pena de até 30 anos, iria fazer o que fez?"

Enquanto lutam por justiça, Marisa conta que ela, o marido e o filho vivem um dia de cada vez, sem planejar muito. Um dia acorda bem, no outro acordam depressivos. "O governo dá sustento para a família do bandido e eu não recebi nada, não recebi qualquer condolência de qualquer entidade de direitos humanos. Pelo contrário, tenho que pagar as minhas dívidas, senão o governo me cobra multas. Infelizmente as leis no Brasil são pró-bandido. A vítima é abandonada", se revolta.

A advogada conta que recebeu uma ligação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Ele disse que daria encaminhamento a PEC que muda a ECA. A proposta é aumentar o tempo de internacional para até 10 anos, dependendo do crime, e transferir o infrator para uma instituição diferenciada, quando ele completar 18 anos. "Ele foi o único que prometeu e fez algo", diz Marisa.


Chateada com os julgamentos que ouve por aí, a mãe de Victor se defende, alegando que não quer a morte do bandido. "Somos contra pena de morte. Queremos justiça. A vítima foi o meu filho", diz, lembrando que, com essa morte, essa é quinta medida que o bandido cumpre. As duas últimas foram por roubo. "Ele saiu no começo desse ano depois de cumprir 44 dias de medida sócioeducativa. Quem avaliou esse rapaz deveria pensar um pouco. Ele não pode voltar ao convívio social. Se ele sair vai fazer com outra pessoa o que fez com meu filho."

Por Juliana Falcão (MBPress)

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