Lábio leporino e fenda palatina: causas e tratamento

Lábio leporino e fenda palatina causas e tratament

Nutricionista atende no Centrinho - USP. Foto: divulgação

Ao contrário do que muita gente pensa, um número razoável de crianças nasce com alguma anomalia no crânio ou a face. Uma das mais comuns é a fissura de lábio e/ou palato, popularmente conhecida como lábio leporino ou fenda palatina.

O mal atinge um em cada 1000 recém-nascidos no mundo. No Brasil, uma pesquisa realizada na cidade de Bauru, em São Paulo, revelou que os casos são ainda mais comuns: em torno de um em cada 650 crianças nascidas apresenta fissuras labiopalatinas (FLP). A incidência varia de acordo com o sexo do bebê. A fissura isolada de lábio ocorre mais nos meninos, enquanto a fissura de palato isolada abate mais meninas.

"Por anomalia craniofacial entende-se qualquer defeito ou lesão estrutural anatômica que acomete a face e/ou crânio e que ocorre durante o período de crescimento intrauterino da criança (gestação)", afirma a pediatra Angela Patrícia Menezes Cardoso Martinelli, da equipe do Centrinho-USP, localizado em Bauru, São Paulo.

No caso do lábio leporino ou da fenda palatina, a malformação ocorre logo no início da gravidez, no período embrionário do feto - até a 12ª (décima segunda semana de gestação, formação dos órgãos).

As FLP geralmente são causadas por fatores genéticos combinados a fatores ambientais a que a mulher ficou exposta durante a gravidez, como infecção congênita - rubéola, toxoplasmose, citomegalovirus, herpesvírus, HIV, fumo, álcool, drogas ilícitas (cocaína, maconha, etc.), deficiência nutricional da gestante, estresse, deficiência de ácido fólico, diabetes gestacional, hipotireoidismo, hipertensão arterial; medicamentos (anticonvulsivantes, corticóides, benzodiazepínico para tratamento de insônia ou distúrbios de ansiedade, isotretinoína/Roacutan, usado para tratamento de acne e de rejuvenescimento. Tudo isso aumenta o risco de que a criança nasça com a fissura.

Graças à tecnologia, hoje é possível identificar a malformação ainda durante a gravidez, como explica a pediatra. "O diagnóstico da FLP pode ser realizado durante a gestação, através do exame de ultrassom pré-natal, por volta de 18-20 semanas de gravidez (4º, 5º mês), podendo ser visualizada a fenda quando tem lesão labial isolada ou associada à de palato, ou então poderá ser diagnosticada ao nascimento através do exame clínico do recém-nascido".

Tratamento

Assim que identificada a anomalia, os pais devem ser orientados a buscar tratamento num Centro Craniofacial, pois, dependendo da fissura, o filho pode ter o comprometimento da estética, dentição, audição e fala. "São várias etapas terapêuticas e cirúrgicas, envolvendo uma equipe interdisciplinar que irá acompanhar a criança, dependendo do caso, até o final da adolescência", ressalta Angela Martinelli.

A especialista, aliás, faz parte da equipe de um dos mais reconhecidos centros especializados em anomalias craniofaciais: o Centrinho-USP da cidade de Bauru. Há 43 anos, o local recebe pacientes do Brasil inteiro - só na área de anomalias craniofaciais são mais de 56 mil pacientes cadastrados - e conta com uma equipe de 762 profissionais de diversas áreas: de pediatras a assistentes sociais e biólogos. Os custos do tratamento ficam a cargo do Sistema Único de Saúde (SUS), ou seja, saem de graça para quem é atendido ali.

O Centrinho-USP realiza todas as partes do tratamento, o que significa tratar alguns pacientes desde que são recém-nascidos até completarem 20 anos de idade. Isso porque, além das cirurgias primárias (cirurgia do lábio aos três meses, cirurgia do palato com um ano), quem nasce com FLP pode precisar de cirurgias secundárias para a melhora da estética do lábio, do nariz, para melhora da fala (faringoplastia), correção estética do nariz na adolescência, cirurgia de enxerto ósseo alveolar, cirurgias otológicas e cirurgia ortognática do final da adolescência.

Também é feito um trabalho com os pais antes da operação para a correção da fenda palatina. O objetivo é prevenir os distúrbios da fala em bebês. "São realizadas orientações para evitar o desenvolvimento de alterações na produção dos sons da fala, além de orientações quanto ao desenvolvimento da linguagem e alimentação do bebê. O acompanhamento da audição também é realizado sempre que necessário", diz a odontopediatra Beatriz Costa.

Desafios e cuidados

O bebê que nasce com lábio leporino ou fenda palatina tem que enfrentar desafios desde o nascimento. Alguns, que nascem com fissura isolada de lábio, podem ter pouca dificuldade para receber a amamentação direto do peito da mãe. Nesses casos, é aconselhado o aleitamento materno por meio de mamadeiras. A mais indicada é a de bico ortodôntico, recomendada para toda criança depois da cirurgia estética e funcional do lábio.

Desde os primeiros cuidados, é essencial que a família seja orientada. "Como o tratamento pode ser longo, dependendo da complexidade do caso, é determinante que o cuidador esteja ciente de cada etapa e possa contribuir para o sucesso das medidas", observa Cristina Guedes Gonçalves, chefe da Seção de Fonoaudiologia do Centrinho-USP.

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Por isso, a pessoa que vai cuidar da criança com fissura labiopalatina conversa e recebe orientações de cada profissional que trata esse pequeno. "Desde os cuidados com a higiene bucal (fundamental para que o paciente esteja em condições cirúrgicas) até orientações sobre alimentação e postura diante de futuros problemas na escola em virtude das alterações de fala ou até mesmo por possíveis casos de bullying pela anomalia facial. Tudo passa pelo cuidador, afinal, ele vai acompanhar a vida daquela criança", conta a odontopediatra Cleide Felício de Carvalho Carrara, também da equipe do Centrinho-USP, que oferece eventos e cursos destinados a pais e cuidadores anualmente.


Se tratadas desde pequeninas, as crianças que nascem com fissuras labiopalatinas podem sim ter uma vida normal. Ao final das várias cirurgias, os resultados podem ser bem satisfatórios e as cicatrizes, quase imperceptíveis. Então, o mais importante é que os pais ou responsáveis procurem ajuda especializada o mais rápido posssível. E, claro, que cuidem desse filho tão especial com muito amor e carinho, tomando todo o cuidado necessário.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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