Kit anti-homofobia do MEC causa polêmica

Kit antihomofobia do MEC causa polêmica

Tão delicado quanto o preconceito é a forma na qual as pessoas e autoridades lidam com ele. Sabe-se que o aversão a homossexuais e transgêneros causa danos irreparáveis ao sujeito que é submetido a isso, aumentando, inclusive, a evasão escolar.

Visando a educação de jovens contra a homofobia, o MEC criou o chamado "Kit Contra Homofobia". Segundo informações da assessoria de imprensa do órgão, ele é composto de três vídeos e um guia de orientação aos professores e deverá ser enviado a seis mil escolas de ensino médio no segundo semestre de 2011. Os vídeos, com duração em média de cinco minutos, tratam dos temas: transexualidade, bissexualidade e a relação de duas meninas lésbicas.

No entanto, o kit (e seu conteúdo) tem fomentado discussões acaloradas. Um dos vídeos - "Encontrando Bianca", que conta a história de uma transexual - vazou no Youtube e, com ele, porções de comentários contrários, que chegam à homofobia.

O secretário regional da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Marcio Marins, acredita que abrir a discussão é a melhor forma de combater o preconceito, mas entende que, a princípio, a visibilidade da causa pode ser motivo de discriminação.

"As denúncias de violência e discriminação nas instituições de ensino justificam a implementação desta ação. Nós do movimento social acreditamos que a homofobia nas escolas é resultado de uma cultura machista e incentivada por dogmas de algumas religiões fundamentalistas que há muito tempo predominam", afirma Marins.

Mas a maior luta é no Congresso. Embora defendido por deputados federais como Jean Wyllys (Psol-RJ), o kit do MEC, assim como projetos de lei como a PLC 122 (que defende a união homoafetiva), desarquivado pela senadora Marta Suplicy (PT-SP), encontra resistência, em especial da bancada "religiosa". Exemplo disso é o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ).

O deputado - que sugeriu "couro" para corrigir filho "meio gayzinho" - prometeu mobilizar toda a bancada religiosa para barrar o que apelidou de "kit gay". "Isso [o material] é um estímulo à homossexualidade, à promiscuidade e uma porta à pedofilia", disse.

Polêmicas no meio acadêmico

Não é só no Legislativo que a medida do MEC tem causado polêmicas. No meio acadêmico, entre psiquiatras e psicólogos, ele também gerou algumas controvérsias. Para Ivete Gianfaldoni Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da UNIFESP, o essencial seria aumentar os debates em torno da questão, para que se forme uma massa crítica.

"Em primeiro lugar, é importante saber como os professores que irão trabalhar com o kit lidam com esse e outros assuntos envolvendo a questão da sexualidade. Como um professor que tem dificuldades em abordar temas relativos à sexualidade vai se sentir à vontade de trabalhar o kit com os alunos? Em segundo lugar, precisarão estar bem treinados e esclarecidos para enfrentarem os debates e questões que virão a partir das informações contidas no kit", explica Ivete.

Ela também ressalta que desconhece que tenham sido feitos estudos-piloto para comprovar a eficácia e alcance do kit do MEC e, por isso, tem dúvidas sobre seu efeito.

Já Oswaldo Martins Rodrigues Junior, diretor e psicoterapeuta do Instituto Paulista de Sexualidade, acredita que trazer essa discussão a tona para adolescentes de ensino médio é um bom primeiro passo para a compreensão e distinção do papel social do gênero e sexualidade.

"O pensamento dicotômico homem-mulher, macho-fêmea, hetero-homo é relacionado a uma fase de desenvolvimento cerebral infantil e nossa cultura não produziu formas de compreensão para as fases evolutivas cerebrais posteriores, quer dizer: adolescência e vida adulta. O kit trará a discussão sobre as alternativas, ao menos algumas delas, pois outras discussões ainda precisarão ocorrer futuramente", explica.

Para o psicoterapeuta, é fundamental que os adultos mostrem que essas variações de sexualidade são normais, para que os adolescentes tenham base para não se sentirem mal com sua própria identificação e com a de outrem.

"A proposta do kit implica em reconhecimento de direito, ao contrário de um adolescente que produz o bullying, que acredita que existe alguém que será superior, desde que se imponha com a força", completa.


Rodrigues Junior também lembra que a crença de existirem apenas dois grupos - homens e mulheres - leva as pessoas a se encaixarem neles, o que pode causar consequências. "Uma delas será a obrigatoriedade de nos colocar em um dos grupos e seguir as regras associadas a esta classificação."

"Virá a época em que, ao menos um grupo de pessoas conseguirá conviver com o diferente e mostrar esse novo caminho. Este é um momento em que estamos produzindo uma forma racional, mediada pela ciência e não apenas pela moral", conclui.

Por Ana Paula de Araujo (MBPress)

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