Jessica Watson e a volta ao mundo em 210 dias

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Imagine deixar família, amigos e a escola para encarar o desafio de sair sozinha em alto-mar e dar a volta ao mundo a bordo de um veleiro cor-de-rosa. Para a jovem australiana Jessica Watson, o desafio se tornou real antes mesmo dela completar a maioridade.

"Pode parecer estranho, mas uma das maiores dificuldades de se navegar pelo mundo aconteceu antes de eu partir. Montar este projeto foi um desafio imenso. Imagine só, uma garota de 13 anos dizendo que quer viajar o mundo sozinha, sem paradas ou assistência. Ninguém te leva a sério! No começo foi muito difícil convencer as pessoas - principalmente as autoridades - de que eu seria capaz de realizar o que estava planejando!", disse a jovem navegadora ao Vila Mulher.

Em recente visita ao Brasil, no São Paulo Boat Show, a Penélope charmosa dor mares, como ficou conhecida, contou um pouco da sua jornada até o temido Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul, considerado local de extremo perigo para os navegantes. A viagem começou em 17 de outubro e terminou no dia 15 de maio deste ano, três dias antes dela completar 17 anos, quando foi recebida por milhares de australianos. O veleiro cor de rosa, denominado Ellas Pink Lady velejou mais de 24 mil milhas náuticas, enfrentou ventos de 40 nós e tempestades que chegaram a jogar Jesse no mar.

"Houve dias que foram muito difíceis, principalmente por conta das tempestades. Em algumas ocasiões senti muita saudade de casa e, claro, encarei o mau humor, como qualquer adolescente! Numa única tempestade, o barco foi tombado quatro vezes. Também tive que lidar com a falta de sono e desvio de navios", contou.

Desde o início, ela também teve que aprender a lidar com a solidão, mesmo se tornando uma celebridade na rede e recebendo vários comentários em seus posts. Durante o trajeto, Jessica se comunicava com o mundo inteiro ao atualizar o seu blog. "Passei por momentos em que senti muita saudade de casa e de todos, mas eu não estava sozinha porque sempre soube que haviam pessoas pensando em mim, apesar de parecer estranho".

Jessica levou na bagagem livros e cadernos da escola para não perder o ano letivo, e, de vez em quando, arriscava algumas comidinhas na cozinha. A maioria dela já foi levada congelada e preparada antes pela mamãe. Mas como não haviam paradas, ela sentiu falta de comidas frescas, "frutas principalmente". Entre os pratos prediletos estavam "costelas de cordeiro, torta de carne em lata e ovos em pó - para fazer ovos mexidos, por exemplo, bastava adicionar leite em pó". E ainda muito chocolate.

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Nas horas de aperto, ela se lembrava dos conselhos que ouviu dos pais e outros navegadores com experiência de sair em alto-mar sozinhos, principalmente aqueles que já haviam conquistado este recorde. "No dia em que parti, minha mãe disse para tomar cuidado e lembrar de me divertir e meu pai disse para que fosse forte e corajosa", recordou.

Depois de viver 210 dias confinada em um espaço de 10 metros com água salgada para todos os lados, usada também para tomar banho, a menina de olhos claros e sorriso metálico agora colhe os frutos da sua jornada. "Só vi terra três vezes". A adolescente já escreveu um livro sobre sua aventura (True Spirit), à venda em diversos países da Europa e América, que está entre os mais vendidos na Austrália - até agora a versão em português não está pronta. Também gravou um documentário e roda o mundo contando a sua história.

O grande objetivo da navegadora era bater o recorde da pessoa mais jovem a realizar tal façanha, mas o título de jovem navegador a dar a volta ao mundo continua com o seu conterrâneo de 18 anos. Isso porque a World Sailing Speed Record Council resolveu extinguir a categoria "mais jovem" dos recordes. A organização também exigia que em sua rota completasse 21.600 milhas náuticas (cerca de 40 mil quilômetros), no mínimo, o que não aconteceu.


Sobre o ocorrido, ela mostra maturidade na sua resposta. "Bem, só posso dizer que sou Jessica Watson, a mais jovem velejadora a dar a volta ao mundo sozinha, sem paradas e sem assistência. Eu conquistei isso. Ninguém pode mudar". Consciente de que ainda tem muito que ainda muita ‘água vai rolar’, ela leva consigo uma lição de vida que pode compartilhar até com os mais velhos. "Aprendi a importância de se divertir, com qualquer coisa que estiver fazendo. E não levar a vida tão a sério". Anotado Jessica.

Por Juliana Lopes

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