Final de semana em Hotel-Fazenda

Final de semana num hotel-fazenda nos arredores de São Paulo. Mas pode também chamar de aula livre sobre o curioso projeto pedagógico da burguesia paulistana. Estar diante de famílias nunca vistas, com a excessiva “intimidade” que um “hotel-fazenda-família” propõe, e poder observar as dinâmicas, as tensões e as manias dos outros, é um exercício praticamente irresistível para nós, curiosos.

Evidentemente, jamais devemos perder de vista que, aos olhos dos outros, os estranhos somos nós. Mas isto é um outro assunto. Vamos falar sobre a mini investigação fenomenológica que se deu.

A pequena, porém significativa, amostra que compôs meu “estudo” é muito afeita ao volume elevado da voz. Mas esta não é, nem de longe, a característica que mais se destacou em minha breve investigação.

Foi possível notar uma atitude intensamente super-protetora nos pais que ali estavam. As crianças jamais ficavam sozinhas, simplesmente brincando entre si. Havia sempre a presença de um adulto disposto a propor atividades “estimulantes”, pronto para interferir nas pequenas e corriqueiras crises por um brinquedo, falando frases “educativas” do tipo “agora é a vez dela”. Dirigindo a cena, basicamente. Embora com a melhor das intenções, os pais simplesmente não dão a chance para que as crianças “se virem” um pouco (crianças, neste caso, que deixaram de ser bebês há uns 3 ou 4 anos).

A palavra mais fartamente pronunciada por pais, mães e babás, naqueles dois dias, foi “cuidado!” Numa das manhãs, estávamos todos no meio da atividade recreativa matinal de dar comida aos bichos (que não sei como não explodem, na alta temporada), e tamanha foi a intensidade da advertência proferida pela mãe, que olhei assustada para trás, já me prontificando a ajudar a criança diante do perigo, que parecia iminente.

Pensei que pudesse ser uma cobra, ou que um tigre tivesse se materializado naquele gramado bem cuidado, ou, até, que o lobo-mau tivesse pulado para fora do livro que estava na brinquedoteca. Mas não, o comando, quase histérico, era dirigido para uma “perigosíssima” poça enlameada. Poderia, também, segundo tais critérios, ser para uma rampinha escorregadia, uma formiga, uma vontade súbita de sair correndo, coisas assim. Os pequenos exploradores sofrem. Não se machucam, não se sujam, mas sofrem…

O ponto alto, e mais representativo da atitude que aqui descrevo, veio de uma mãe que levou, para seus gêmeos de 3 anos, todas as refeições prontas de casa! Levou até a sobremesa (potinhos de Danoninho), que ela deve considerar mais “seguros” do que aquelas frutas naturais, cuja procedência desconhece.

Os clubes, as praças, os shoppings de São Paulo estão repletos destas mães e destes pais. Não só deles, é claro. Mas este parece ser um padrão bastante freqüente.

É justamente em uma via, não oposta, talvez em bifurcação a esta, que vemos crescer nas pesquisas a expressão de um desejo por valores maternos mais leves, livres e soltos. Mães que abrem mão do excessivo controle e que acolhem imprevistos e imperfeições com maior boa-vontade. Um pouco menos de assepsia, um pouco mais de sujeira. Mas, todo mundo, é claro, sempre querendo acertar.

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

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