Fertilização em homens soropositivos

Fertilização em homens soropositivos

De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil cerca de 80% das pessoas com AIDS estão na faixa etária reprodutiva. Uma cifra tão negativa tem ganhado contornos otimistas através de técnicas que possibilitam a fertilização de mulheres sem o vírus do HIV com sêmen de homens soropositivos.

Baseado numa espécie de "lavagem" dos espermatozóides, o método permite que pais realizem o sonho da paternidade e auxilia na quebra do preconceito que ainda existe em torno da doença.

O embriologista e diretor da clínica Genics Reprodução Humana e Genômica de São Paulo, Philip Wolf, explica como funciona o processo e quais são as condições para que ele possa ser realizado. Segundo ele, é preciso, em primeiro lugar, que o homem esteja tomando o coquetel contra a AIDS corretamente, além de apresentar um bom sistema imune e carga viral indetectável no sangue.

Uma vez regularizados esses pontos, é realizada uma coleta do sêmen e dos espermatozóides, que são enviados para uma detecção de carga viral; depois o material é congelado. Em seguida, se não forem detectados rastros do vírus, dois caminhos diferentes podem ser seguidos: inseminação intrauterina ou in vitro.

Mas antes da fertilização, é necessário que os espermatozóides passem por um processo de limpeza e reformulação. "A gente faz uma dupla lavagem, que consiste em processar os espermatozóides duas vezes com o intuito de remover células que possam estar contaminadas", explica Wolf. Ele afirma, ainda, que a probabilidade de tornar a mulher uma portadora do vírus é quase nula.

Esse, de acordo com o embriologista, é um risco improvável que existe em relação ao processo. "Não se pode afirmar 100% que não existe o risco. A possibilidade, mesmo que seja muito remota de converter a mulher, existe. Pode formar um embrião com HIV. Mas eu nunca vi nada parecido com isso", alerta Wolf.

Ele aponta, ainda, que outros cuidados além do que concerne à saúde do homem devem ser tomados. O embriologista explica que deve haver, também, um rígido controle de qualidade das amostras de sêmen para que não exista o risco de as mulheres serem contaminadas. Além disso, o parto da mãe deve ser feito através da cesária, para que o bebê não seja infectado ao nascer.

E as precauções continuam após o nascimento. É preciso, ainda, que a criança receba a droga AZT durante os três primeiros meses de vida. Além disso, ela não pode ser amamentada pela mãe, a fim de evitar qualquer tipo de contaminação.

Porém, tudo indica que por mais complexo que seja o processo, o resultado vale a pena. Wolf atenta para os pontos positivos. "A transmissão do vírus de pai para filho ou de pai para companheira pode ser trabalhada, provendo a paternidade e acabando com risco de contaminar alguém que ainda nem nasceu", explica.


O embriologista ressalta também o caráter social por trás deste tratamento. Ele conta que muitas clínicas que trabalham no ramo nem mesmo divulgam que realizam essa técnica de fertilização. O motivo disso é o forte preconceito que ainda estigmatiza a doença e seus portadores. Assim, a conquista da paternidade por pais soropositivos se enquadra não só como uma conquista científica, mas também como mais uma ferramenta de combate a um julgamento inadequado, porém presente, acerca dos portadores do HIV.

Por Giulia Lanzuolo (MBPress)

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