Crianças que não sabem dividir os brinquedos

E quando as crianças são egoístas

Não querer dividir os brinquedos é um ato normal até os seis anos de idade. Essa fase é chamada de egocentrismo, na qual a criança não aceita a ideia de compartilhar seus pertences com outra, seja da mesma idade ou não.

Normalmente, isso tende a desaparecer a partir dos oito anos. Mas, até a chegada desta fase, é preciso que os pais incentivem os filhos a dividir, dando exemplos práticos para que os pequenos entendam que isso é bom e necessário. A escola também é uma boa opção, pois a criançada começa a conviver com coleguinhas da mesma faixa etária e a professora, aos poucos, ensina todos a repartirem os brinquedos.

Segundo o doutor em psicologia e professor da USP, Christian Ingo Lenz Dunker compartilhar não é algo natural, mas que precisamos aprender e tomar gosto. Desse modo, o entendimento do conceito de propriedade é uma grande conquista para a criança.

"Antes dos 18 meses, ela pode sentir frustração ao ser privada de um objeto. E entre os 18 e 36 meses, este processo entra em uma fase mais aguda, na qual a criança passa por dois momentos: o negativismo (descobrir o que quer e o outro quer) e o transitivismo (quando ela confunde a posição de seu eu com a do outro). Estes dois fenômenos concorrem para a formação do eu e ao mesmo tempo trazem terríveis consequências para a divisão dos objetos".

Christian comenta que os pais que não sabem ou não encontram muita satisfação em trocar, misturar ou deixam a posição de posse indeterminada, tendem a transmitir isso para os filhos. A própria ideia de transmitir, educar ou criar filhos presume uma política de divisão e compartilhamento, já que os genitores dividem com os pequenos um mundo que eles mesmos ajudam a construir.

"É preciso entender que há um trabalho a ser feito e os adultos devem rever seus próprios modelos de posse e uso, de compartilhamento e abuso. Entender que nós não nascemos dividindo e que aprendemos este processo conforme nos foi ensinado", diz. "Geralmente, crianças com dificuldades mais acentuadas para dividir estão respondendo ao desejo de afirmar, lutar ou preservar a posse, o que em nossa cultura é um valor muito importante e tenso."

Quando a criança tiver essa crise na frente de familiares e amigos, os pais devem intervir para ensinar o que é melhor para ela. "Se os pais se intimidam na frente de outros (e a criança rapidamente percebe isso) é porque eles próprios não estão ‘compartilhando’ o valor representado pela importância de dividir", afirma o professor.


Muitas pessoas falam que é errado os pais obrigarem seus filhos a dividir os brinquedos. Mas, o psicólogo diz o contrário: "Depende da circunstância. Há momentos nos quais ‘forçar’ um empréstimo, segundo uma leitura do que está em jogo para aquela criança será muito importante. Pode ser uma forma de dizer ao filho: vamos experimentar, talvez você e nós descubramos algo novo com isso. Ou pode ser uma forma de ensinar a lei da retribuição (se ele lhe emprestou agora você está sendo ‘obrigado’ a emprestar).

Esta lei é fundamental para que a criança entenda aspectos decisivos do mundo social, como reflexividade, simetria, gratidão e equidade. Sem isso os prejuízos potenciais são enormes, alerta"

Por Caroline Belleze Silvi (MBPress)

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