Crianças manipuladoras: saiba se você tem uma em casa

Crianças manipuladoras

Foto: Image Source/Corbis

Se você tem um filho, com certeza já ouviu as reclamações dele sobre o que comer, a hora de dormir e qual canal será sintonizado na televisão. Mas até que ponto elas podem escolher o que bem entendem? Crianças manipuladoras podem estar escondidas em todos os lares e a culpa parece ser dos adultos.

Na explicação da psicanalista Marcia Neder, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas de Psicanálise e Educação da USP e autora do livro "Déspotas Mirins - O Poder nas Novas Famílias" (Editora Zagodoni, R$34,00), estamos todos vivendo uma "pedocracia", nome que ela criou para a era do poder infantil. "Esse é um fenômeno cultural e assumiu a liderança a partir da perda de poder do pai", conta.

Segundo a escritora, apesar de os movimentos feministas afirmarem que, com a o fim do patriarcado, as mulheres ganharam mais poder, mas quem realmente recebeu a coroa foram os pequenos. "Se a mãe fosse a poderosa da vez, não teríamos crianças sem limites mandando o tempo todo", explica Marcia. E esse modelo se caracteriza pela vida da família girando em torno das crianças já a partir da descoberta da gravidez.

"A mãe se torna escrava do bebê que está por vir e, caso se negue a essa escravidão, paga com culpa, fica longe, mas culpada. Quanto tempo as crianças tomam da vida de uma mulher (tempo esse no qual ela precisa se comportar de maneira submissa)? Na gravidez, ela empresta seu corpo a outro ser, que habita aquele espaço e faz da mulher refém. Isso pode ser angustiante e elas não se permitem, mas foram sequestradas por seus próprios filhos", explica a pesquisadora.

"As pessoas ficam enraivecidas quando veem as mães deixarem as crianças na creche para ir à praia, ao shopping, porque ela precisa estar junto do filho o tempo todo. Há uma enorme reprovação contra quem não faz o sacrifício", completa. Além disso, as mulheres perdem sua identidade para se tornarem "a mãe de fulano" e a cobrança sobre elas é implacável.

4 atitudes de crianças manipuladoras

Veja algumas situações comuns do dia a dia nas quais você pode estar alimentando o poder de um pequeno ditador:

1ª) Convívio entre adultos

Todo mundo já teve uma experiência na qual seu filho ou de algum amigo ficou incomodando na sala onde vocês estavam, exigindo atenção, carinhos da mãe, querendo brincar enquanto os adultos conversam ou se intrometendo no meio do assunto aos quais ele não foi chamado. Segundo a pesquisadora, essa liberdade excessiva adquirida pelas crianças para, até mesmo, conviver "de igual para igual" com os adultos, dá extremo poder a elas, que se aproveitam e exigem cada vez mais dos pais.

2ª) Pirraça

Shoppings, escolas, supermercados, em casa, na casa de visitas e pelos mais diversos motivos, sejam eles justos ou extremamente simples, os déspotas mirins, como Marcia se refere, reagem negativamente a quase qualquer regra que lhes é imposta e, quando os pais não têm muita firmeza, essas reações ficam cada vez mais fortes, causando situações constrangedoras, como o filho que rola no chão do shopping para conseguir um mero sorvete.

3ª) Hora de dormir

A criança impõe aos pais onde, quando e com quem dormirá. Isso poda a liberdade dos pais de uma forma tão bruta que, na maioria das vezes, até o momento que deveria ser particular do casal, para dar continuidade à vida de marido e mulher, é roubado porque a criança quer estar junto deles, recebendo atenção o tempo todo.

4ª) Escola

Tudo bem que quase todas as crianças fazem alguma objeção sobre ir à escola alguma vez na vida, principalmente nas primeiras vezes em que aquele é um ambiente desconhecido e hostil. Mas e a batalha que algumas mães enfrentam para colocar os pequenos do portão para dentro? As coisas começam na hora de acordar e terminam na cara emburrada quando voltam, passando pelo banho, o café da manhã e o temido portão da escola. Mas será que isso é normal? Talvez não.

O conselho da psicanalista é simples, mas não muito fácil de ser colocado em prática. "De uma maneira geral, os pais devem lidar com estas situações diárias sendo adultos. Dizendo o que as crianças devem ou não podem fazer sem ambivalência, de modo firme e sem se posicionar ao nível da criança. É preciso aceitar, também, que serão odiados algumas vezes - e odiarão seus filhos - e que tudo bem", explica a escritora.

De acordo com ela, os pais têm medo de serem odiados por seus filhos e tentam o tempo todo excluir esse sentimento, sem lembrar que essa dualidade entre amor e ódio é inerente de todas as relações saudáveis. Aos pais deve ficar a responsabilidade de educar a criança, dizendo o que ela pode ou não fazer e o que deve ou não ser feito, de modo firme, confiante e não suplicando sua aprovação.


"Os pais precisam agir como adultos, com firmeza, carinho e delicadeza. Não há necessidade de ser carrasco - e eu nem estou sugerindo que sejam -, mas é preciso firmeza na hora de ditar as regras. Se a criança tem algum direito sobre o assunto, tudo bem, mas se não tiver escolha, não deve haver qualquer discussão", comenta Marcia. Ela acredita que essas crianças sem limites se sentirão enganadas no futuro, como se tivessem sido abandonadas e não amadas pelos pais que não souberam colocar barreiras aos seus mimos.

E não é preciso sacrificar a relação com os filhos em nome da boa educação e se manter distante deles para não induzir a tal pedocracia. Limites não fazem mal a ninguém e com um pouco de firmeza e conversas francas com as crianças, é possível mostrar a elas que você quer apenas seu bem e que aquela aparente imposição significa que você a ama o suficiente para brigar por algo benéfico a ela.

Eles são pequenos, mas podem entender perfeitamente o que você quer dizer. Tenha calma e paciência para tentar quantas vezes forem necessárias até que eles entendam que não adianta chorar ou espernear porque é você quem tem o controle da situação.

* Serviço: Marcia Neder, psicanalista.

Por Juliany Bernardo (MBPress)

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