Crianças com Síndrome de Down: o desafio da inclusão nas escolas

O desafio da inclusão nas escolas

Foto: Henrique Garcia

De acordo com a lei 7.853, de 1989, os portadores de necessidades especiais têm direito à inclusão social. E no que diz respeito à educação, os representantes de instituições que negarem a matrícula dessas pessoas podem ser punidos com reclusão de um a quatro anos e multa. Mas na prática o acesso ao ensino não é tão claro assim.

Matricular uma criança especial em escolas regulares exige muita dedicação e paciência, uma vez que não são todas as instituições que abrem os braços para esses alunos. Os motivos para algumas recusas, conforme explica a coordenadora pedagógica do Colégio Global, Dulce Mendes, se deve à estrutura e qualificação profissional.

Ela defende que escola precisa disponibilizar pessoal, equipamentos e recursos especializados. "Tudo isso tem um custo alto, mas ninguém informa ou determina quem arcará com ele. Será justo que seja repassado à anuidade escolar cobrada de todos os demais alunos?", pensa. "A obrigação do atendimento, sobretudo gratuito, é do Estado, do poder público, conforme prevê a Constituição Federal, artigo 205. O direito é de todos, mas o dever é do Estado e da família e não de outra pessoa física ou jurídica."

Outra barreira vista por Dulce é a identificação real das possibilidades do aluno e do tipo de trabalho a ser realizado com ele. "Por mais informações que tenhamos sobre a Síndrome de Down, cada indivíduo traz um bio histórico, reflexo do tipo de estimulação que teve ou da falta dele e, muitas vezes, a família não aceita as condições apresentadas pela escola", argumenta.

Formar uma equipe multiprofissional, com o intuito de organizar um planejamento pedagógico, e preparar as pessoas que conviverão com estas crianças aumentam a lista de exigências que levam escolas particulares a recusar alunos especiais. "Além disso, deve haver um projeto dirigido a esses alunos, composto por representantes de diferentes áreas, como fonoaudiólogos, neuropsicólogos, neurologistas, terapeutas ocupacionais dentre outros, além de representantes pedagógicos da escola", acrescenta Dulce.

Mesmo com todos esses empecilhos, quem não mediu esforços para garantir o direito da filha aos estudos foram Pérsio Kohatsu e Cristina Kohatsu. Pai de Naomi Kohatsu, de seis anos, portadora de Síndrome de Down, eles conseguiram matricular a menina numa escola particular em Santos, litoral sul de São Paulo. Ele conta que a maioria das escolas tinha os mesmos discursos e alegava não ter estrutura ou pessoal qualificado.

"Algumas delas nem quiseram conhecer a minha filha. Eu fiquei chateado, pois não queria tirar o direito de Naomi de estudar, de se socializar como uma criança normal. Percebo que falta uma boa proposta pedagógica e uma pitada de boa vontade e conhecimento por parte das escolas", declara Pérsio. "Os profissionais acham que ela dá trabalho, que eles terão que fazer tudo por ela, até levar ao banheiro. E não é assim. Naomi faz tudo sozinha. Sem contar que conhece letras, cores e números, poderia ser alfabetizada como as demais crianças".

As quatro primeiras escolas recusaram Naomi. Na quinta tentativa a criança foi acolhida e até passou por uma avaliação com uma psicopedagoga. O exame concluiu que ela poderia ingressar direto na primeira série, cujas aulas começam agora em fevereiro. Além da escola regular, Naomi também frequenta a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), que se encarrega de dar um suporte pedagógico.

Esta não é será a primeira experiência de Naomi num ambiente escolar regular. Dos dois aos cinco anos ela frequentou uma escola particular, numa sala composta por outros 10 alunos. Pérsio conta que eles a adoravam. Sabiam que ela precisava de ajuda e rapidamente a acolhiam, a chamavam para brincar. "A integração social era excelente. Havia, inclusive, um aluno hiperativo na sala dela e ele acabou ajudando e sendo ajudado pela minha filha. Tanto é que Naomi foi a única da classe a ser convidada para o aniversário dele", lembra Pérsio.

No ano passado, por questões financeiras, Naomi precisou ir para uma escola municipal. Tanto Pérsio e Cristina sentiram diferenças. Até a professora tinha certa dificuldade em lidar com a menina. "Naomi não tinha mais os amiguinhos da escola, mas no final acabou se saindo bem e desenvolveu um bom relacionamento com os demais alunos e com a docente".


Quando o assunto é preconceito, Pérsio afirma: "Ele se faz presente apenas entre os adultos. As crianças são puras, não viam minha filha como uma coitadinha. Brincavam, a ajudavam sempre que necessário. Os pais que eram mais abertos conversavam conosco, comentavam que seus filhos gostavam muito de Naomi", lembra.

A intenção de Pérsio agora é fazer com que Naomi permaneça na mesma escola até o Ensino Médio. Querem que ela não apenas se socialize, mas crie seu círculo de amigos. "Não sei quanto tempo ainda ela vai ficar na APAE, mas penso que um dia vamos faltar e ela vai precisar aprender se virar. E acredito que essa convivência vai ajudá-la bastante", finaliza Pérsio.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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