Contando até Dez

Mulheres conversam muito entre si. Se interessam pelas opiniões alheias, gostam de dar e pedir conselhos, fornecem e solicitam dicas sobre os mais diversos assuntos. Muito positivo, muito solidário, muito útil. Porém, o lado B desta prática é totalmente neurótico, como mostra o episódio que nos foi relatado por uma mãe conhecida.

Chegava ela à brinquedoteca (quando foi que inventaram esta palavra?) do clube, numa típica manhã de sábado feliz. Logo na entrada, deparou-se com uma colega dos tempos de faculdade. Justamente uma certa colega que tinha compartilhado com ela um mesmo “ficante” (muito embora este termo sequer existisse no início da década de 90, lá no século passado, quando ambas haviam se formado).

A diferença é que a colega tinha se apaixonado pelo cara que, como se pode imaginar, estava “super querendo”, aos 18 anos, um compromisso sério com ela. Mas, de todo modo, ela não gostou de saber que ele tinha gravado uma fita K7 romântica para a nossa mãe-depoente, e nenhuma para ela. Enfim, elas não se bicavam muito e, dentro de instantes, isto seria revivido, agora em um novo campo de provas.

Máscara de simpatia a postos. Cada uma “portando” sua filha de 3 a 4 anos, foi dada a largada:

- Oi, querida. Que graça sua filha. Em que escola ela está?

“Nossa!” - pensou nossa mãe-depoente - “como é direta!”. “Acho que vou responder que ela não está na escola. Que eu vou alfabetizá-la em casa, utilizando um método que eu mesma inventei com a ajuda de um pessoal lá de Mauá”. Mas, não teve coragem, e respondeu o nome da escola.

- Humm… não conheço. É bilíngüe?

“É” - pensou nossa mãe-depoente - “ela aprendeu o mandarim antes mesmo do português. Sabe, o futuro…”. Mas, respondeu a verdade, que não, não era bilíngüe.

Neste momento a colega olhou para os lados, provavelmente procurando alguma outra mãe para conversar, mais à altura de seu padrão educacional, mas, como não encontrou ninguém, ficou ali mesmo.

Conversaram alguns segundos sobre outros assuntos para aliviar a tensão. Nossa mãe-depoente estava até achando-a mais simpática aos 40 do que aos 20. Logo, a conversa retoma o trilho inevitável:

- Minha filha demorou um pouco para andar. Deu os primeiros passos sozinha aos 8 meses e meio. E a sua?

- Não lembro, respondeu nossa mãe-depoente, só para chocá-la. Lembro apenas do dente. O primeiro, nasceu aos 10 meses, 7 dias e 14 horas. Eu estava tão preocupada com isto que, certo dia, cheguei a abrir a boca dela 47 vezes para ver se via algum pontinho branco na gengiva. Não sei como ela não teve uma câimbra…

- É. A gente se preocupava com cada coisa, né? - disse a colega, tentando esconder que o emprego do verbo no tempo passado era apenas retórica.

A gostosa conversa ainda abordou o número de cores que cada filha sabia, a quantidade de brócolis que cada uma comia, o tanto de horas que cada uma dormia. Quando a colega perguntou se a filha da nossa mãe-depoente já montava sozinha um quebra-cabeça de 100 peças, ela resolveu dar uma volta e ver se achava um pai para conversar.

Interessante como, de forma mais ou menos acentuada, as mães alimentam este tipo de investigação. As experiências relatadas pelo outro funcionam como um termômetro sobre o quanto estão confortáveis com as próprias. Do celular escolhido ao marido escolhido, as conversas femininas são ferramentas poderosas e, às vezes, perigosas…

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea.

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