Como nossos pais

Tem coisas que realmente ficam impressos na nossa alma. Hoje mesmo estava tentando estudar, e num momento de estafa me atirei na cama com vontade de não pensar em nada, só descansar.

Atualmente está difícil esvaziar a mente e ficar naquele ‘aummmmm’ que a meditação ensina, mas veio à mente uma lembrança, talvez a mais remota que eu tenha.

Não sei que idade eu tinha, 2 ou 3 anos talvez, mas lembro da minha mãe cantando para eu dormir. Eu com o sono chegando, olhava pra minha mãe prestando atenção na música sem sequer saber o que ela dizia e, minha mãe me olhando, sabe-se lá pensando no que.

Me veio um sentimento bom, sentimento tranqüilo de alguém que sim, teve a sorte de receber amor dos pais.

Se essa rua, se essa rua fosse minha

Eu mandava, eu mandava ladrilhar

Com o brilho, com o brilho dos seus olhos

Só pro meu, só pro meu amor passar.

Se essa rua, se essa rua tem um bosque

Que se chama, que se chama Campeão

Dentro dele, dentro dele mora um anjo

Que roubou, que roubou meu coração.

Caramba... até então eu nunca tinha parado pra pensar no que isso significa. Ver uma criança com olhar de pais deve ter um significado inimaginável. Tu poder contemplar aquela criaturinha até então indefesa, com traços teus, seja um olhar, o formato da boca, os cabelos, talvez as mãos ou os dedinhos dos pés, mais tarde imitando teus gestos, tuas falas, vendo que um pedaço teu está na tua frente, exteriorizado e não se sabe de onde vem esse sentimento tão puro e forte capaz de sentir por aquelas carinhas de anjo. Talvez hoje eu entenda os sentimentos da Cá com o Be, da Cris com o Gonçalo, do Fabio com a Nana, do Indio com a Tina.

Antes de vocês me apresentarem a vida de vocês, eu via o mundo pelo ângulo de filha. Sei que há pais e pais, não tem como comparar, mas pra mim vocês são exemplos. São pessoas que independem de outros defeitos e virtudes, me ensinaram a verdadeira acepção da palavra amor, esse sim, verdadeiro.

Só agora consigo entender meus pais. Entendo perfeitamente os risos que meu pai segurava quando eu caía de patins, para me encorajar a tentar novamente. Quando a minha mãe preparava minha mamadeira e eu dizia pra ela que não tinha mais mãos (escondendo elas atrás do corpo) para a mãe ficar comigo. Entendo talvez o que meu pai sentia, quando eu ficava deitada do lado dele enquanto ele lia o jornal e eu não entendia porque vendiam tanto apito (apto). Entendo a paciência que minha mãe tinha quando eu queria mostrar pra ela ‘só mais uma vez’ que eu tinha aprendido a mergulhar na piscina. Quando meu pai me via quieta e me atirava uma bergamota podre só pra começar a brincadeira. As guerrinhas d’água... a preocupação quando quebrei um dente. O primeiro dia de aula que foram os dois me buscar na saída. O dia que eu ria sem parar porque fui com os chinelos do meu pai na aula (ele calçando 39 e eu 28).

Entendo hoje o que o meu riso significa pra eles.

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