Autismo - luta contra o preconceito

Autismo  luta contra o preconceito

O autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que, apesar dos muitos anos de estudo, ainda conserva divergências até mesmo científicas. Seja pela diversidade de características ou pela falta de informação deste transtorno, muitos jovens autistas e seus familiares sofrem preconceitos nos mais diversos grupos da sociedade.

Segundo Ângela Mathylde Soares, psicanalista, psicopedagoga e diretora da Clínica Aprendizagem e Companhia, o maior problema desta falta de informação está no fato de pensar que uma pessoa com autismo tem as mesmas características e fisionomia de quem tem retardamento mental.

"O autista tem algumas características bem específicas. Ele possui dificuldade em se juntar às outras pessoas, repete muitos gestos, possui risos inapropriados, não tem controle dos próprios limites, faz pouco contato visual, tem dificuldades com os métodos de ensino normais, repetem as palavras, podem ter tanto a hiperatividade quando o inverso, dificuldade de expressar suas necessidades e forte apego aos objetos", explica Ângela.

Andréa Werner Bonoli, de 35 anos, descobriu que seu filho Theo tinha autismo pouco antes dele completar dois anos de vida. Hoje, com quase três aninhos, ele já faz terapia e tem uma vida aparentemente normal. "As professoras da escola notaram alguns comportamentos atípicos nele, então procuramos um psiquiatra infantil e um neuropediatra e eles confirmaram o diagnóstico", diz.

A mãe de Theo ressalta que, apesar de perceberem algumas diferenças no comportamento do filho, ela e o pai achavam que podia ser apenas uma característica dele. Andréa também comenta: "Ele é nosso primeiro filho, então não tínhamos parâmetro. A família já desconfiava, mas não tinha coragem de falar nada".

"A notícia chega como uma bomba. Costumo dizer que você vive um luto. É como se o filho lindo e perfeito que nasceu, e que você idealizou e imaginou um milhão de coisas para ele, morresse. Você tem que lidar com uma realidade na qual não contava, afinal, ninguém engravida esperando um filho especial", desabafa Andréa.

A psicanalista explica que a negação dos pais é muito comum ao receber a notícia. Depois desta fase do luto chegam as outras: a vergonha e o altruísmo, este de grande importância à criança, mas que requer cuidado da mãe, porque ela não deve deixar o pai de lado de todas essas novas vivências e experiências com o filho.

Quanto ao preconceito, assim como acontece com outras doenças e síndromes, ele é silencioso. A mãe de Theo diz que percebe, às vezes, os olhares das pessoas e acrescenta: "Uma criança autista tem muito mais dificuldades em lidar com frustração. Então, é comum elas gritarem e se jogarem no chão. As pessoas olham como se você fosse uma péssima mãe. Não entendem que se trata de uma pessoa especial e não mal educada".

"Às vezes, quando ele está brincando no meio de outras crianças, comento com outras mães que ele é autista. A maioria diz: ‘Mas ele nem parece’. As pessoa ainda têm na cabeça o autista-clichê, como o personagem de Dustin Rofman em Rain Man. Quando se deparam com uma criança que interage, é aparentemente inteligente e esperta, nem imaginam que se trata de um autista", esclarece Andréa.

A diretora da Clínica Aprendizagem e Companhia acrescenta que, na verdade, quem percebe o preconceito não é a criança, que vive contida em seu próprio mundo, mas sim os pais e os familiares, por compreenderem os olhares das outras pessoas e se depararem com alto nível de desinformação.

"O nível de informação é muito precário. Pediatras no país não estão aptos para identificar os primeiros sinais de autismo em bebês. É comum a gente ouvir no grupo de apoio do qual participo frases como ‘meu filho já tinha três anos, não falava, mas o pediatra dizia que estava tudo bem, que ele ia falar no tempo dele", afirma Andréa.

No dia 02 de abril, Dia Mundial do Autismo, decretado pela ONU, houve um trabalho de conscientização em diversos monumentos em São Paulo e Rio de Janeiro, que acenderam luzes azuis, repetindo o movimento do "Light It Up Blue", iniciado nos Estados Unidos.


"Existem dias piores e melhores, mas a intervenção precoce realmente funciona. É importante aprender a abstrair os pensamentos em relação ao futuro, afinal, nem mesmo um pai de uma criança com desenvolvimento normal mental sabe como ela estará no futuro. Se você conseguir controlar essa ansiedade, já é meio caminho andado", finaliza a mãe do pequeno Theo.

Por Carolina Pain (MBPress)

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