Atitude de mãe coragem!

Atitude de mãe coragem

Arthur. Foto: arquivo pessoal.

A gravidez. Um dos momentos mais esperados e mais especiais na vida de uma mulher e na dos que a rodeiam. Tudo é planejado nos mínimos detalhes e a ansiedade da chegada daquele pequeno ser é mais do que certa. Mas, e quando você descobre que talvez a gravidez não tenha corrido como o esperado e houve uma consequência no meio do caminho? É isso que aconteceu com Renata Antoniassi.

A jornalista sofreu um acidente durante a gravidez: uma queda na escada, que resultou em uma má formação do feto. "Com oito a nove semanas, bem na época da formação dos membros, eu cai de uma escada e quebrei o sacro (um osso da coluna que fica localizado antes do cóccix). Não sabia que estava grávida e só descobri quase duas semanas depois, quando tive uma hemorragia assombrosa e precisei ir ao hospital", relembra Renata.

Na época, ela já era mãe de uma pequena menina, Ana Clara, hoje com quase sete anos. Depois de alguns exames que comprovaram a gravidez, mais uma surpresa: a futura mamãe descobriu que o saco gestacional (local onde o embrião se desenvolve) estava 50% descolado e as chances de sobrevivência do bebê eram cada vez menores. "O médico até orientou não comentar sobre a gravidez, porque o risco de perda era imenso", lembra. O jeito era ficar em repouso para que não acontecesse um aborto espontâneo. "Fiz tudo como deveria ter feito e o bebê ‘vingou’".

Com aproximadamente quatro meses de gestação, outra hemorragia fez com que a jornalista fosse às pressas ao hospital. E, dessa vez, Renata descobriu que sofria de "placenta prévia". "Com uma gestação de risco, eu precisava de repouso absoluto por, praticamente, todos os nove meses", relembra. "Geralmente, nesses casos, a gestação não chega até o final, por conta das constantes hemorragias".

A cada 15 dias era feita uma ultrassonografia, para ter certeza de que não haveria mais complicações durante a gestação. Em um desses exames rotineiros, Renata descobriu que seu filho, Arthur, nasceria sem o braço e sem o antebraço esquerdo.

A queda no começo da história foi a responsável por impedir o crescimento do bracinho de Arthur. Na época, um especialista informou a Renata que com o tombo, um coágulo de sangue, provavelmente, teria se desprendido e se alojado onde nasceria o braço do feto, impedindo o desenvolvimento. "Hoje, ele é atendido pela equipe da AACD e a geneticista de lá concluiu a mesma coisa - a causa da má formação foi mesmo a queda, porque as características da deformidade não são provenientes de um problema genético".

Depois de mais quatro hemorragias, Renata e o marido acharam melhor adiantar um pouco o nascimento. A gravidez era de risco e durante o todo o período, a mamãe foi avisada de que complicações poderiam acontecer. "Durante todo o tempo o médico me disse que, em 20% dos casos de placenta prévia, poderia haver uma complicação na hora do parto que atende pelo nome de "acretismo" (quando a placenta adere ao útero)". Quando isso ocorre, ao cortar a pelve para que a placenta seja aberta e o bebê possa sair, ocorre uma hemorragia, o que também coloca em risco a vida da mãe. "Eu entrei para a estatística", relembra Renata.

Depois de entrar em coma e receber 17 bolsas de sangue, finalmente a mãe pode se encontrar com o filho, Arthur, e sair com ele nos braços. "Tirei o útero e saí do hospital carregando meu filho, exatos sete dias depois, com uma recuperação que ninguém acreditava", comemora.

Mesmo assim, no começo foi difícil aceitar o problema de Arthur. Renata conta que cada pessoa da família sofreu muito, cada um do seu jeito. "Minha filha ficou transtornada, queria dar o braço das bonecas para ele", relata. O mais difícil, para Renata, foi tentar entender porque todos perguntavam como ela havia sobrevivido e se esqueciam da existência do bebê.

A família foi então peça importante para a superação de qualquer olhar e comentário que pudesse prejudicar. "Meus amigos e minha família, assim como a família do meu marido, todos foram muito firmes com o fato de ele não ter braço", afirma. "Ninguém o olhava torto, nem nunca o trataram como deficiente".

Além do apoio familiar, os amiguinhos de Ana Clara foram essenciais para a aceitação de Arthur. "Todos eles perguntavam por que ele era assim e eu explicava", relembra a mãe. "Hoje o Arthur é um deles". O primeiro passo para ensinar ao Arthur que ele é igual a todas as outras crianças foi cortar as mangas das blusinhas, para que ele pudesse ter o máximo de contato possível com a mãozinha esquerda. "Ele acabou sendo seu maior fisioterapeuta. Tem total conhecimento do seu lado esquerdo e faz um bom uso da mão".

Atitude de mãe coragem

Família de Renata. Foto: arquivo pessoal.

Renata garante que olhares de pena passam longe do filho. Isso porque, segundo ela, quando uma pessoa olha para ele, já muda de opinião. "Além de ele ser feliz e muito carismático, não se aperta com nada", afirma. A atitude dessa mãe coragem é parte importante dessa relação que o menino já tem com o mundo. "Não tenho problema com meu filho, não o escondo, não deixo de levá-lo a nenhum lugar. Meu único medo é que o chamem de coitado, porque isso ele não é. Assimilei bem quando uma psicóloga da AACD me disse para aproveitar essa oportunidade para mostrar ao mundo que ele é igual a todo mundo. E é o que eu faço".

Renata sofre apenas com o futuro. Sabe que, mais para frente, talvez Arthur tenha que enfrentar preconceitos ao ir à escola ou mesmo no trabalho. Mas acredita que o pequeno vai tirar de letra e driblará mais um obstáculo. "Por não privarmos ele de nada, tratá-lo normalmente, talvez ele seja mais forte que todo o preconceito. Ele já mostra ser assim, mas o mundo é cruel e não está preparado para o diferente", lamenta.


Segundo Renata, com 1 ano e 8 meses, não há nada que Arthur não faça. "Até acho que, por não ter um braço, ele é mais travesso do que muitos meninos por aí. Ele sobe em cadeiras, anda de carrinho, corre, escorrega, senta, mexe em tudo", relata. "Perfeito aos meus olhos e aos olhos de todos que o conhecem".

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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