Amigo Imaginário - fuga da realidade?

Amigo Imaginário  fuga da realidade

Um dos fatores que diferencia as crianças dos adultos é a capacidade ilimitada de sonhar, imaginar. A vida adulta pede uma dose pesada de realismo e, muitas vezes, a atrofia da criatividade. O poeta Carlos Drummond Andrade, no poema “A Incapacidade de ser Verdadeiro”, escreve que as crianças são um caso de poesia, ou seja, vivem em seu universo paralelo e é aí que entram os amigos imaginários.

Não é difícil ver crianças falando com personagens que só existem na imaginação. Alguns dão nomes, inventam características e até conseguem visualizar o companheiros irreais. “Até os cinco anos de idade, é normal a criança conversar com as vozes dentro de sua cabeça”, explica Ângela E. C. Herrera, terapeuta de família em São Paulo. Ela afirma que até certa idade as crianças vivem mais no mundo da fantasia, e esse tipo de comportamento faz parte do crescimento delas.

Um dos motivos que podem influenciar as atitudes fantasiosas são as mudanças. Ângela diz que esse é um processo que gera medo e, portanto, a criança cria um mundo de fantasia para se proteger. Segundo ela, mesmo que os pequenos não tenham muito conhecimento da realidade, são sensitivos e conseguem perceber o que acontece ao seu redor. “Se o casal tem problemas de relacionamento, a criança consegue captar através da tristeza da mãe”.

No entanto, o comportamento fantasioso deve ser observado pelos pais, para que a criança não viva somente em seu mundo de fantasia ou ache que não precisa fazer parte da vida real. Ângela, que também é assistente social e coordenadora da Vínculovida, uma empresa de consultoria e formação terapêutica, diz que não é normal que a criança crie um mundo só dela e se afaste dos amiguinhos.

A profissional ressalta que os pais não devem incentivar que o filho fuja da realidade, mas também não devem reprimí-lo quando conversar com o amigo imaginário. Ao perceber que a criança está sonhando acordada, os pais devem convidá-la para fazer outra coisa ou chamá-la para brincar. Levar os amiguinhos em casa também é uma boa maneira de fazer com que ele se socialize e não fique com a cabeça no mundo da lua.

Não existe idade padrão para a criança parar de imaginar pessoas ao seu redor, mas elas costumam ficar mais atentas dos cinco aos sete anos de idade. O motivo seria que, a partir dessa idade elas começam a ir para a escola e conhecer novas pessoas e passam a ter algumas obrigações, que acabam fazendo com que se esqueçam dos amigos imaginários.

Se o hábito de viver no mundo da fantasia continuar, é preciso procurar ajuda de um profissional que possa diagnosticar o motivo pelo qual a criança prefere ficar dentro de si. Ângela conta que uma de suas pacientes prolongou o prazo de seu amigo imaginário. A razão pelo distanciamento com a realidade seria o alcoolismo do pai. “Como a menina vivia uma realidade muito dura, se refugiava no seu mundo particular” explica.

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Para entender o que se passa dentro da mente de uma criança não é preciso ser maduro, mas sensível, sensitivo. A poesia de Drummond fala de um menino que conta para a mãe as peripécias fantasiosas. Ela não acredita e o leva ao médico. O diagnóstico? Trata-se de um menino sonhador, que consegue ver além do que é possível enxergar com os olhos. Um pouquinho de fantasia saudável (e poesia) não faz mal a ninguém.

Por Cínthya Dávila (MBPress)

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