A terra dos gêmeos

A terra dos gêmeos

Cândido Godói é uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, conhecida como a terra dos gêmeos. A maior concentração de pares - fraternos ou idênticos - se encontra na linha de São Pedro, há 12 quilômetros do centro de Cândido Godói. E ninguém sabe ao certo porque a região tem tantos casais desse tipo: são pelos menos 40 pares, em 4 quilômetros de extensão. Entre os nascidos entre 1919 e 1994, 10% eram gêmeos. A média normal é de 1%.

As razões mais comentadas moram nas especulações a partir da ida do médico nazista Joseph Mengele à cidade. Conhecido por suas atrocidades com gêmeos não-arianos, ele teria passado pela região durante uma fuga para a América do Sul e, por lá, feito experimentos, se tornando o responsável por essa inclinação genética. A tese cai por terra e vira boato quando se analisam os números. Os gêmeos já nasciam na região em grande quantidade antes mesmo dele se instalar por lá. Hoje, no município todo, de pouco menos de 7 mil habitantes, há pelo menos 68 casais de gêmeos.

Os moradores até se ofendem quando perguntam sobre Mengele. "É uma grande farsa que não tem fundamentação teórica nem cientifica, é mera ficção. Não tem como Mengele ter entrado em contato com as pessoas na região. Ele pode até ter passado por aqui, mas as pessoas garantem que nunca entraram em contato ele", afirma o historiador Paulo Sauthier, organizador de um museus da imigração alemã em Cândido Godói. Ele deixa bem claro que os moradores da cidade têm uma cultura conservadora, o que os impediria de falar com estranhos, principalmente se fosse para participarem de experimentos.

A cidade ganhou tanto destaque que o governo se aproveitou da fama e acabou criando a ‘Festa dos Gêmeos’. "Ela faz parte do calendário turístico da cidade, para reunir a imprensa e todos os gêmeos que também não são descendentes dessa região", conta Paulo. A cada dois anos, gêmeos de todos os lugares se reúnem para festejar.

Os mitos, lendas e tentativas de explicação em torno do assunto são muitos. Os moradores da cidade acreditam que a comida e o estilo de vida saudável da população sejam as causas do mistério dos gêmeos. Outros, apostam na existência de algum mineral na água da região, que seria "milagroso".

O próprio Paulo, também um dos mais antigos gêmeos que residem na cidade, é uma dessas pessoas que acredita nisso. "Para nós, tudo continua uma incógnita. Ninguém até o presente momento conseguiu argumentar essa incidência. Pode ser que exista algum elemento na terra ou na água, alguma substância que influencie, mas são meras hipóteses". Como os gêmeos da cidade apresentam uma variedade de tipos (60% fraternos e 40% idênticos), fica ainda mais difícil encontrar uma explicação.


O caso da linha de São Pedro chamou a atenção da geneticista Úrsula Matte, do Hospital das Clínicas do Porto Alegre. Desde os anos 90 ela pesquisa o caso e acabou encontrando uma possível resposta, naquilo que a genética chama de "efeito fundador". Em entrevista recente à CNN, num especial sobre o Sul do Brasil, ela explicou que esse efeito seria responsável por um gene comum que se propagaria entre os moradores da comunidade, composta essencialmente por pessoas nascidas na região. Úrsula está estudando exemplos sanguíneos para tentar isolar o gene responsável. Mas por enquanto, o mistério continua.

Por Tissiane Vicentin (MBPress)

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