Tráfico de bebês: professor busca a mãe biológica

Tráfico de bebês como resgatar as orige

Foto: Jamie Grill/Tetra Images/Corbis

A novela das 21h da TV Globo, "Salve Jorge", colocou em pauta muitos assuntos que até então não faziam parte das rodinhas de amigos: o tráfico de bebês. Há quem pense que isso é pura ficção, mas há sim pessoas que sofrem até hoje por não saberem em que dia nasceu e nem de onde vieram.

O professor de Educação Física Cezar Graeff, hoje com 44 anos, tenta há mais de 20 anos descobrir suas origens, mas sem sucesso. Ele teve a confirmação de que era adotado aos 21 anos, por conta de uma briga com o cunhado. "Eu já me sentia fisicamente diferente da minha família. Os trejeitos e gostos também não eram os mesmos. Precisei de um desentendimento em família para saber a verdade", conta.

A mãe adotiva de Cezar se recusa a contar a história inteira e, cada vez que ele tenta tocar no assunto, ela começa a chorar e diz que não se lembra. O que o professor sabe até hoje é que sua mãe adotiva se casou, teve três filhos e se separou. O tempo passou e ela e o ex-marido resolveram reatar a relação. E como não podia mais ter filhos, recorreu à adoção para coroar a retomada da família.

Três anos depois da adoção os pais adotivos do professor se separaram novamente. Aí a relação dele com a mãe ficou distante. "Ela não foi a nenhuma reunião de pais e mestres nos meus primeiros anos de escola. Repeti a 1ª série por não saber ler. Aos 16 anos a ouvi comentar com uma parente ao telefone que eu era um fardo. E aos 18 anos me botou para fora de casa, com medo que eu soubesse a verdade. Felizmente fui acolhido pelo meu pai adotivo", conta.

O registro de Cezar se deu somente um ano após a adoção. E ele foi registrado como sendo filho legítimo. "Não sei nem quando ou onde nasci. Fui até a instituição, me falaram que não havia mais dados e, com muita luta, há dois meses consegui um documento com pouquíssimas informações, dizendo que eu havia passado pela instituição e que minha mãe biológica se chamava Cacilda de tal!", diz. "Aquela instituição teve casos de tráficos de bebês. Acho que fui uma vítima."

Sem o nome da mãe biológica, sua luta para saber as origens fica ainda mais difícil. Ele chegou a procurar Ricardo Fischer, criador da ONG Filhos Adotivos do Brasil, mas ainda não obteve sucesso. "Já fui chamado de ingrato por querer saber minha história, que eu deveria deixar quieto, já que faz tantos anos. Mas as pessoas não entendem, quando percebi que vivia uma mentira, foi como se o chão sumisse dos meus pés", lamenta.

Hoje Cezar quase não fala direito com sua mãe adotiva. Ele mora sozinho, numa casa localizada num terreno que divide com os irmãos. "Meu pai já faleceu, mas me deixou seu sobrenome. Por isso não fiquei desamparado. Arranjei trabalho e consegui pagar minha faculdade", diz. "Mas me tornei um adulto meio atrapalhado. Tenho bloqueios sociais e emocionais grandes. Não me casei, mas ainda quero construir uma família".


Cezar já contou sua história em outras oportunidades e algumas vezes foi procurado por algumas mulheres que diziam ser sua mãe. Fez até exames de DNA, mas deram resultados negativos. "Às vezes sinto que cavo um buraco e jogo terra nas minhas costas. Acordo pensando no assunto, mas é como procurar uma agulha no palheiro", pensa.

Apesar da falta de pistas, Cezar não perde a esperança e diz: "Se até as pedras se encontram de tanto rolar, quem sabe minha mãe não aparece? Quando a encontrar quero olhá-la nos olhos, perguntar o que houve e tomar um café da tarde."

Por Juliana Falcão (MBPress)

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