Pais do século XXI

Pais do século XXI

O mundo mudou, as mulheres mudaram e, por consequência, os homens também tiveram que embarcar na onda da transformação. Em pleno século XXI, ser pai pode ser um desafio que os homens não esperavam ter que enfrentar. Eles assumem o papel de mãe, ficam com a guarda dos filhos e fazem o que podem para manter essa nova ordem familiar moderna.

A agência de casamento Par Ideal, de Curitiba, calcula que 66% dos homens cadastrados têm filhos - e 12,5% conquistaram na justiça, ou por consenso, o direito de criá-los. Na faixa entre 41 e 50 anos o índice é ainda maior: 30%. “O número pode parecer pequeno se comparado ao direito conquistado pelas mulheres, mas já é uma mudança representativa. Hoje muitos homens fazem questão de ficar com os filhos, isso não é mais encarado como um fardo”, afirma a diretora da agência, a pedagoga Sheila Chamecki Rigler.

Josmar Arrais, vice-presidente da FranklinCovey Brasil, especializada em levar eficiência às pessoas e corporações, acredita que as mudanças constantes do mundo pós-moderno exigem mesmo uma multiplicidade de papéis de ambos os gêneros. “O dos pais aumentou no sentido de uso do tempo de qualidade com filhos, participando da vida cotidiana deles”, considera.

E essa participação pode vir de diversas maneiras. Algumas situações, no entanto, refletem bem como a maioria dos homens não foi estimulada para o diálogo com os filhos. “Alguns chegam ao cúmulo de falarem com os filhos por MSN e outros meios, mesmo estando dentro de casa. É preciso coragem e consideração. Alguns pais não têm coragem para dizerem o que precisa. Outros têm, mas não falam com consideração. Uma dica é marcar uma reunião de ‘trabalho’ com o filho, seja no almoço ou jantar, e levar uma lista de tópicos que precisam de conversa mais séria”, sugere Josmar.

Mas mesmo com os pais tentando, uma pesquisa do Datafolha revelou que eles estão atrás dos irmãos, avós e da mãe, claro, em ordem de importância, principalmente nos quesitos amor e confiança. A pesquisa mostra que elas estão em primeiro lugar por conta dessa maior participação na vida dos filhos.

Para Josmar confiança é a junção de duas variáveis: caráter e competência. “Se a confiança está em baixa, é preciso verificar em qual destes atributos o pai está pecando”, afirma. Para verificar onde está o erro, o consultor dá uma dica que pode ajudar nessa análise: se perguntar, por exemplo, se está sendo transparente e falando com sinceridade; se demonstra respeito, cumpre com responsabilidade de educar e se confia no filho, sem invadir sua privacidade, pode ajudar a derrubar barreiras e encontrar um abraço sincero do outro lado da linha.

O profissional de marketing Rodrigo Facio, de 28 anos, é um desses homens que viraram pais no meio da revolução feminina moderna. Há quatro anos, quando estava desempregado, se deparou com a esposa grávida. Ele jura que não deixou transparecer o desespero, mas assim que a “ficha caiu”, tratou de pensar numa solução para a vida que vinha pela frente. “No nascimento de meu filho as coisas foram acontecendo e fomos agindo conforme as necessidades”, lembra.

O emprego veio mesmo apenas depois que o menino nasceu. E no turno da madrugada! “Na hora em que o meu corpo queria dormir, eu precisava trabalhar. E na hora que eu precisava dormir, o meu corpo não queria descansar”, lamenta. Na época, ele passou a ver o filho menos do que gostaria, pois precisava dormir durante o dia. “Simplesmente não vi o crescimento do meu filho, dos 8 meses a 1 ano e meio de idade. Minha esposa me cobrava muito para mudar de emprego ou me esforçar mais para ficar com meu filho, mas eu não conseguia ser um pai presente. Até que consegui um emprego na área de marketing e meu filho passou a conhecer o pai que não via”, comemora. Numa entrevista ao Vila Filhos, esse pai dos tempos modernos falou das dificuldades que enfrenta, da inversão dos papéis, dentro de casa, e como se sente sabendo que os filhos tem “preferência” pelas mães!

É muito difícil ser pai no século XXI?

Sim. Meu filho tem apenas 4 anos e já possui seus próprios desejos e opiniões. Eu e minha esposa procuramos compreendê-lo da melhor forma e tentamos não barrar sua genialidade e criatividade. Acredito que se os pais não souberem distinguir limites de exageros, aí será um problema no futuro, pois não haverá um ambiente de confiança e compartilhamento.

Como você lida com a inversão dos papéis dentro de casa?

No início, depois da gestação, minha esposa voltou ao trabalho e eu cuidei do meu filho e da casa. Antes de me casar, eu morava sozinho e cuidava de minha casa, mas não com um bebê. Realmente foi um grande desafio, pois eu tinha que manter a casa em ordem e dar atenção ao mesmo tempo, pois se eu saísse de sua frente ele chorava. Então eu levava o carrinho para todo o canto da casa. Outra dificuldade era a minha esposa não poder mais dar o leite materno, pois apesar de o ideal ser até os seis meses, ele estava acostumado com essa rotina e não aceitava mamadeira. Às vezes ele mamava com minha esposa na parte da manhã e depois só à noite, na volta dela. Com muita paciência consegui superar essa fase até arrumar um emprego. Sei que isso tem a ver com o meu filho ser muito ligado a mim.

Como você faz para se divertir e participar da vida dele?

Procuro fazer o que ele gosta. Ele adora filmes infantis (principalmente ir ao cinema), jogar futebol e utilizar o computador. Está iniciando o gosto pelo videogame e para mim não é muita dificuldade participar, pois adoro todas essas coisas. Além disso, eu e minha esposa fazemos piquenique com ele uma vez ao mês e passeios em parques. Nas últimas férias que eu tirei, preferi aproveitá-las na época em que ele vai à escola, pois tive a oportunidade de levá-lo à escola, participar da reunião de pais e mestres e ajudá-lo com as atividades de casa.

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Como se sente com a pesquisa que diz que as mães têm mesmo a preferência?

Sem dúvidas é verdade. Apesar de eu ter uma excelente relação com meu filho, minha esposa sempre foi uma mãe maravilhosa e parece que o “cordão umbilical” entre eles ainda não se rompeu. Confesso que fico com ciúmes quando ele prefere ficar com ela e diz para que eu não fique muito perto. Acredito que se a mãe tiver afeto verdadeiro ao seu filho, ela terá sempre a preferência e os papais devem se conformar com isso e ser o melhor que podem para seus filhos.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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