Mulheres que brincam de serem mães

Mulheres que brincam de serem mães

Boneca Reborn Foto/Reprodução Site bbreborn.com

Aqui no Vila Filhos, nós já falamos sobre o mercado das bonecas chamadas de reborn, quase reais. Essas bonecas idênticas a um bebê, de altíssimo custo, estão sendo adquiridas por mulheres adultas. Algumas compram por prazer, outras como recurso terapêutico. No último caso, são mães que perderam os filhos e encomendam bonecos parecidos com a criança que tiveram.

A prática também acontece em outros lugares do mundo. O psiquiatra, Dr Keith Ablow, que trabalha como consultor da Fox News, nos Estados Unidos, comentou em um artigo que muitas mães estão em busca de bebês produzidos para parecerem prematuros que veem com uma incubadora grátis.

Outras mulheres pedem para a empresa produzir o boneco com os traços de seus filhos quando crianças. E os tratam como tal, levando-os ao shopping, mercado e até comprando a cadeirinha apropriada para carro, para acomodar o "bebê". Segundo o psiquiatra Keith Ablow, se fosse "apenas" uma curiosidade mórbida ou uma paixão de colecionadora, seria um hábito menos nocivo.

"Certamente essas pessoas tentam satisfazer o instinto materno. Mulheres que não podem ter ou perderam o filho. Ou até mesmo as mães que os filhos saíram de casa, porque casaram ou por causa dos estudos", acredita. "Porém, esses comportamentos devem ter limite, para que não prejudiquem a saúde mental dessas pessoas. O que era para ser uma ‘representação muito próxima de um ser humano’ virou loucura, por parte de quem a consome.

Para a psicóloga Kátia Bizarro, não há nada de sadio em tratar um boneco como um bebê. "Faço essa afirmação pensando na oportunidade que a pessoa perde de realmente realizar o que quer, de ser capaz de sustentar o seu desejo de tornar-se mãe com todas as ‘dores e delícias’ que isso implica", declara.

"Nada substitui uma experiência, mas estamos numa época em que os produtos são criados com esse objetivo, e que as pessoas, por sua vez, estão cada vez menos conscientes do próprio desejo, de tão inseridas que estão em demandas midiáticas e cinematográficas", completa. "Hoje, parece que mais importante do que ser, é parecer. E estes objetos correspondem a isso: fazem parecer. Mas não são, e nunca serão capazes de transformar a dona de uma boneca numa verdadeira mãe. Ainda bem!"

A psicóloga fala também sobre o risco que essas mulheres correm comportando-se dessa maneira. Segundo ela, essas mães correm o mesmo risco que todas as outras que tentam colocar um objeto no lugar de um vazio existencial: "O de nunca se indagarem acerca desse vazio, de irem mudando de objeto, numa tentativa alucinatória de preencher algo impreenchível, de tornarem-se compulsivas por compras (pois depois do boneco vêm as roupinhas, a cadeirinha, e demais objetos acessórios) e, sobretudo, o risco de não se aventurarem na experiência real de relacionarem-se com pessoas reais."


Dra. Kátia afirma que estes objetos visam camuflar as dificuldades inerentes ao relacionamento entre os seres humanos. "Para ter um bebê real, uma pessoa precisa de um trabalho, pessoas com quem pode contar para poder dividir tarefas, não precisa necessariamente um marido, mas alguém que faça a função paterna, que é interpor-se entre a mãe e a criança para que ela tenha a possibilidade de inserção no mundo da linguagem. Isso tudo requer alguma tolerância à frustração", alerta. "Um boneco não requer nada disso, mas também não transforma a dona ou o dono do boneco numa mãe, ou num pai."

Por Caroline Belleze Silvi (MBPress)

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