Meu filho não fala!

Meu filho não fala

Ouvir um "mamá" bem tímido dos pequenos talvez seja uma das emoções mais fortes que uma mãe possa sentir depois do nascimento deles. Daí para frente, o bebê vai se deparar com o universo da língua portuguesa e até pelo menos cinco anos já vai aprender boa parte do nosso vocabulário. "Nos primeiros meses de vida, a criança emite vocalizações reflexas, depois emite sons espontaneamente e por volta de um ano começa a falar e a compreender as primeiras palavras", explica Érica Ferraz, fonoaudióloga do Grupo Microsom.

Até aproximadamente os oito meses de idade, a criança chora, emite os primeiros sons (gorgeio) e as primeiras sílabas (balbucio) para se comunicar. Depois disso, conforme a fonoaudióloga Gisele Valdstein, começa a fase de usar pequenas sílabas com significado. "Usa o ‘bo’- querendo dizer acabou ou o ‘iu’- querendo dizer caiu", exemplifica.

Entre dois e seis anos é comum a criança ter dificuldade em pronunciar algumas palavras e sons mais difíceis. "Neste período de aquisição de linguagem, a criança pode gaguejar ou "trocar letras" na hora de falar, por estar em plena fase de aprendizagem da língua e por ainda não ter certeza de como pronunciar determinados sons". Mas claro que isso varia muito porque cada criança tem o seu próprio amadurecimento neurológico.

Entretanto, se o seu filho não chega a compreender a linguagem dita ou ainda não consegue falar coisas simples, é preciso buscar ajuda de um médico. "O período de desenvolvimento e aquisição de fala deve ser acompanhado de perto, pois se houver alguma dificuldade em qualquer destas fases, quanto antes ela for percebida, melhor será a evolução da aquisição de linguagem", alerta Ferraz.

Os fonoaudiólogos usam diferentes linhas de tratamento para os distúrbios da fala. "Sendo que a programação do tratamento deverá ser individualizada e embasada tanto nas etapas normais do desenvolvimento da linguagem, respeitando cada fase, como no potencial individual de aprendizado de cada criança", acrescenta Valdstein. Já Érica lembra que algumas crianças nascem com perdas auditivas profundas nas duas orelhas, isso faz com que elas também não falem quase nada, sendo assim é imprescindível a terapia fonoaudiológica para a estimulação da linguagem, às vezes feita até com a linguagem de sinais.

A relação entre dificuldade auditiva e falar pouco tem uma explicação óbvia. Conforme Érica, a criança aprende a pronunciar as palavras ouvindo o que as outras pessoas falam. "Se a criança tiver algum problema de audição (passageiro ou permanente), a aquisição da fala também poderá ser prejudicada. Quando a criança utiliza muitos gestos para se comunicar, não responde ou demora a responder quando a chamam pelo nome ou aumenta muito o volume da TV, tem otites de repetição, são fortes indícios de que ela tenha problemas auditivos de fala também".

"A audição é a porta de entrada para os estímulos sonoros e para o aprendizado da fala. O bebê desde que nasce está exposto aos múltiplos estímulos ambientais e à fala dos adultos e crianças que convive. É a partir destes estímulos que vai estabelecendo a compreensão da linguagem e formando suas próprias experiências para articular e produzir os sons", aponta Gisele Valdstein.

Primeiras palavras

As fonoaudiólogas afirmam que os pais devem sempre falar de forma simples, sem usar diminutivos, reduzir palavras, trocar letras, mudar nomes dos objetos ou repetir a forma errada como elas falam. "A entonação de voz sim, pode ser aguda, adocicada ou até mais rude para dar limites. Se a criança falar errado, o adulto deve repetir a mesma palavra enfatizando sua forma correta de pronunciar, nunca imitando o erro da criança ou zombando dele", diz Valdstein. Érica compartilha a mesma opinião e acrescenta que o ideal é sempre o modelo correto da fala, pois a criança aprende aquilo que escuta. "Os sons da língua são adquiridos gradativamente, em uma escala evolutiva. As crianças mais novas ainda não conseguem produzir o "r" aos dois anos de idade, por exemplo. Então, o adulto não pode exigir isso dela, mas deve falar devagar e usar frases curtas. Também encorajá-la a falar, dando atenção e demonstrando interesse em conversar com ela", conclui a fonoaudióloga.

A criança pode ser estimulada a falar de diversas formas:

- ouvindo o que ela tem a dizer

- respeitando o seu tempo de falar

- aproveitando as atividades do dia-a-dia para dizer os nomes e funções dos objetos, brinquedos, móveis, partes do corpo etc

- explorando os órgãos da fala (Ex: vibrar os lábios, jogar beijo, encher as bochechas de ar)

- imitando os sons do ambiente e da vida diária (cachorro, passarinho, buzina, apito, chuva etc)

- pedindo para a criança contar às atividades que fez durante o dia

- contando histórias para a criança (e pedir para ela modificar o final da história, por exemplo)

- brincando com objetos que produzam som, para estimular a audição (caixa de fósforo, caixinha com feijões etc)


"Para estimular a parte motora, o aumento gradativo da consistência dos alimentos a partir dos 6 meses de idade colabora para fortalecer a musculatura que participa das funções orais, além de preparar o bebê para articular os sons da fala", finaliza Valdstein.

Por Juliana Lopes

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