Mães-mala: como os pediatras lidam com elas

Mãesmala como os pediatras lidam com elas

Quando o telefone toca, dra Cibele já imagina que é mais um chamado de uma mãe desesperada, que não sabe o que fazer com o bebê. Há mais de 30 anos salvando a vida dos pequenos e mantendo a boa saúde, e, de quebra, dos pais aflitos, ela chega a atender mais de 20 telefonemas por dia, enquanto conversa e atende outros bebês ou crianças, seja no hospital ou no seu próprio consultório.

"Muitos pais nem o procuram quando o pediatra não dá atendimento fora da consulta, pelo celular. Eu mesma não me importo, acho que isso já faz parte dessa especialidade, por sinal uma das mais concorridas na minha época de faculdade. Agora, muita gente nem a escolhe por conta disso", afirma Cibele Pimenta Borges Spinelli, pediatra do Hospital Infantil Sabará.

Febre alta e tosse são as causas mais comuns para os pais buscarem a sua ajuda. Agora no verão aumentam também os casos de crianças com vômitos e diarréias. "Digo que 90% das ligações não são por causa de algo urgente, mas só deles ouvirem a nossa voz, às vezes uma opinião simples, já conseguem contornar a situação", diz.

A pediatra conta que no início da carreira era mais comum receber ligações de madrugada, mas com o passar dos anos, o costume diminuiu. Geralmente, quando as mães entram em contato com ela altas horas é porque se trata de um caso mais grave, "como uma convulsão, por exemplo".

Conforme a especialista, nos Estados Unidos não existe essa proximidade entre pediatra e paciente. "Dificilmente, eles têm o número do celular. Sei disso porque minhas irmãs moraram muitos anos lá. Eu particulamente não sou a favor, acho esse vínculo muito importante".

Cibele conta que nos finais de semana é comum o telefone tocar durante as suas caminhadas na praia. "O meu marido, que também é médico só que clínico, às vezes me pergunta se eu aguento, mas acho que faz parte da profissão. Elas me questionam porque a criança não toma o suco de laranja ou qual é o motivo da coceira no pé", conta.

Na opinião de Cibele, a preocupação em excesso acontece principalmente porque muitos pais trabalham fora e não acompanham os altos e baixo da criança. "Quando chegam em casa, cansados, eles não sabem como lidar com a situação e logo pegam o telefone". Conforme a psicóloga Ana Lúcia Gomes Castello, o excesso de zelo acontece principalmente na primeira infância, pela própria inexperiência em lidar com o contexto de uma criança.

"Na experiência clínica, esse fato acontece até o final da primeira infância. A criança que se torna muito dependente dos cuidados da mãe começa a ter comportamentos de insegurança. Ela não consegue fazer nada sem a provação e sem a ajuda dos pais", alerta.


Acostumada em assistir aos pais superprotetores, ela tem várias histórias para contar. "A mãe de uma criança de 05 anos queria ir todos os dias à escola para dar o lanche da filha e, claro, como a escola não permitiu, ela ligava todos os dias para saber se a criança tinha se alimentado. Um outro exemplo foi uma mãe que não deixava a criança dormir sozinha. Isso gerou tanta insegurança na criança que hoje, aos 17 anos, ainda dorme na cama dos pais", conta. Segundo a psicóloga, tudo começa quando elas entram na vida escolar. "É importante que os pais possibilitem um intercambio das crianças em casa de amigos, lembrando sempre que é importante que os mesmos conheçam os pais dos amigos", finaliza.

Por Juliana Lopes

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