Vamos cobrar para uma sociedade mais justa?

Se existe algo que incomoda as pessoas em geral no mundo ocidental é o conceito de negociação. Digo isso porque no Oriente é muito mais comum e estimulado, desde a infância, o costume de negociar, regatear e cobrar. É sabido que nos países árabes o fato de haver uma negociação faz parte do processo de compra e venda de produtos e mesmo serviços. Sem a negociação, a compra parece não ter o mesmo peso - isso dito pelos próprios vendedores. Eles já esperam que o comprador queira discutir preços e as condições de pagamento. Portanto, negociar torna-se um ato natural.

No nosso mundo ocidental negociar é algo que não se ensina em casa, via o exemplo dos pais. Muita gente aprende a negociar - que envolve o seduzir com o produto ou serviço, depois o estabelecimento do preço e condições de pagamento - sem ter uma base de referência, e assim nasce um conceito comum que é o de evitar a negociação a todo custo. Aceita-se a regra do outro e pronto.

Quando falamos em cobrar a coisa fica ainda mais complexa. Cobrar é parte natural de um processo de compra e venda. Vai o produto ou serviço e volta o dinheiro ou forma de pagamento estabelecida. Assim sendo, o processo torna-se bom para ambos. O vendedor fica satisfeito com o negócio fechado, e o comprador idem. Um leva o dinheiro e outro leva o produto ou serviço. Nada mais justo.

Mas e quando o lado que deveria pagar posterga o pagamento, ou ainda dificulta que a negociação seja concluída? Precisamos lembrar que não existe motivo para deixar de cobrar quando isso é parte do processo de negociação - a exceção é a doação, onde você entrega o bem sem esperar nada em troca - e portanto é preciso receber a contrapartida, seja na hora do pagamento ou num prazo estipulado. Quando alguém entrega um bem sem determinar quando será feito o pagamento a negociação não acontece, torna-se doação. Portanto, quem faz a troca do bem por algo é que está na liderança do processo, e pode definir se será doação ou negociação. Trocando em miúdos, significa que é dever do vendedor cobrar, exatamente na hora da negociação.

Se você, que vendeu algo, não cobrar na hora da entrega do produto ou serviço, está tirando da outra parte o senso de limite, e contribuindo para que o seu comprador não amadureça o conceito de valor. Quando não pagamos por algo temos a tendência de não dar a ele o devido valor. Coisas dadas, gratuitas, soam para nós como irrelevantes. Note como isso é verdadeiro quando uma criança compra algo com o dinheirinho da mesada e cuida do objeto com mais cuidado do que quando ele ganha algo sem ter feito qualquer esforço... é da natureza humana.

Portanto, lembre que cobrar implica em ser eticamente responsável. Para cobrar não é preciso se torturar ou sentir vergonha, desconforto e repulsa. Mesmo que estes sentimentos apareçam, lembre que o valor da transação não se esgota em receber o dinheiro devido, mas inclui a postura dos elementos na negociação. Quando você cobra com clareza, sem envolver sentimentalismos, o outro lado - o cobrado - se sente tranqüilo para entender e negociar a forma de pagamento também sem sentimentalismos. Ninguém se sente humilhado ou envergonhado quando a cobrança é feita claramente, de forma justa. Importante também é lembrar que terceiros não devem ser envolvidos, pois isso pode criar desconforto em todos, até naquele que nada tem a ver com a negociação.

Olhar nos olhos enquanto falar, não estender demais os detalhes, mas ser assertivo ao comentar sobre o custo do produto ou serviço e deixar claras as formas de pagamento que são convenientes para você ou seu negócio são as formas mais inteligentes de realizar o fechamento da negociação. Isso se aplica seja na negociação que envolve dinheiro quanto nas negociações de condições e limites tanto no âmbito profissional quanto pessoal. Se seus filhos não cumpriram com a negociação prometida, cobre providências e atitude, deixando claros os limites e prazos nos quais a negociação precisa ser concluída. Lembre que isso os ajudará a crescer eticamente responsáveis.


Uma sociedade justa é aquela onde os elementos negociam com clareza, com boa vontade e fé. As medidas procuram valorizar o que há de melhor em cada processo, para que todos se sintam realizados nos processos de negociação nos quais estão envolvidos. Pense nisso e faça sua parte para seu bem estar e global. O mundo mais ético e justo agradece.

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

Comente