Tijolos ou papéis: comprar ou não a casa própria?

Aluguel ou imóvel próprio é um dos assuntos mais polêmicos na área de finanças pessoais e uma das questões mais freqüentes para quem trabalha nessa área. Nesta coluna vou tentar tratar do assunto de maneira diferente. Uma abordagem que leve o leitor a tirar suas próprias conclusões, para a sua situação particular. Aliás, atente para essa dica: nem tudo o que é bom para o seu vizinho é bom para você.

Via de regra a resposta de economistas, financistas, jovens, corretores de valores, solteiros, investidores arrojados e pessoas que se mudam com freqüência, deve ser na linha de aplicar o dinheiro e com os rendimentos pagar o aluguel. Uma resposta matemática, financeira.

Por outro lado, a resposta de construtores, corretores de imóveis, pessoas acima de quarenta anos, casais com filhos, investidores conservadores, profissionais estabilizados, moradores de cidades pequenas, pessoas com hábitos cotidianos e que gostam de raízes tende a ser pela compra do imóvel. Uma resposta psicológica, social.

Até aí, abordamos tendências em grupos sociais. Não há necessariamente uma posição certa e outra errada. Há pessoas que convivem bem com dívidas e prestações. Outras ficam desestabilizadas. Há alguns que gostam de ficar do lado de fora do balcão e sentirem-se importantes na condição de clientes. Outros se realizam do lado de dentro, na posição de empresários. Alguns preferem bens de raízes, outros um saldo elevado no banco. Os dois lados são importantes no contexto social, assim como locatários e locadores.

A questão maior é como cada um se sente melhor. Financeiramente, o aluguel passa a ser interessante se o custo for inferior ao rendimento líquido que o valor do imóvel possa proporcionar, de maneira estável e relativamente segura, em determinado horizonte, e vice-versa.

Há alguns anos, o rendimento médio dos aluguéis residenciais era superior a 1% ao mês e os imóveis eram considerados investimentos seguros inclusive no quesito preservação do valor monetário. Essa situação mudou. Hoje o rendimento médio está na casa dos 0,5% a 0,6% do valor dos imóveis, e em algumas cidades o padrão e a tendência imobiliária mudam tão rápido que certos imóveis perdem valor se não estiverem na linha desenvolvimentista da região. Em cidades como Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, apesar do valor dos aluguéis não terem sofrido grandes variações nos últimos anos, o valor dos imóveis subiu consideravelmente, garantindo uma valorização superior a vários outros ativos.

Mas o perfil psicológico do investidor também é importante. Há quem se disponha a viver pagando aluguel por alguns anos, morando num imóvel abaixo da suas possibilidades para poder economizar, aplicar o dinheiro e alguns anos mais tarde comprar um imóvel melhor. O problema é que muitos se dispõem a isso, mas poucos conseguem realizar. No caminho há tentações e às vezes o dinheiro economizado acaba tomando rumos inesperados. O sacrifício torna-se inútil. E o aluguel, que era para ser provisório, vira um eterno companheiro. Como não resta dinheiro aplicado, o aluguel deixa de ser opção e vira um peso no orçamento.

Também há a questão do estilo de vida. Há quem valorize bons carros, viagens, boa comida, boas roupas. Outros valorizam o moram bem. Não se propõem a viver abaixo do que podem para economizar dinheiro e abrem mão de outros prazeres pela opção de morar bem, ou pelo menos morar no que é seu. Não existe certo ou errado nisso. É uma questão pessoal.

Apenas por essas poucas diferenças é possível perceber que não existe uma resposta única. É preciso ponderar, acima de tudo, o bem-estar do investidor. Afinal, o nível de rendimento não é o único fator a considerar, até porque não é garantido. A tranqüilidade e a satisfação pessoal são imprescindíveis e se manifestam de forma diferente em cada caso.

Para quem optar por incluir imóveis no seu portifólio de investimentos, algumas dicas sobre características de imóveis que geralmente proporcionam melhores retornos: imóveis bem localizados; simples; econômicos; voltados para pessoas de baixa renda; pouca manutenção; bairros em expansão.

Pelo lado dos exemplos, conheci gente que sentiu-se realizado ou prejudicado nas duas situações. Um amigo que aplicou o dinheiro equivalente a um apartamento de um quarto e em poucos anos conseguiu rendimentos suficientes para comprar um de três quartos, bem mais caro. Também conheci o caso de uma família que passou aperto porque a renda caiu e não tinha imóvel próprio. O aluguel era elevado e precisaram mudar de casa e de bairro, gerando transtornos adicionais.

É claro que as pessoas contam mais sobre as cachaças que tomam do que sobre os tombos que levam. As perdas costumam ser escondidas e até esquecidas e os acertos muitas vezes são usados para exaltar uma posição. O que sempre me deixou curioso, é que apesar da polêmica, à medida que cresce o patrimônio das pessoas, a tendência é crescer a participação dos imóveis nessa composição, ou seja, mesmo quem em determinado momento da vida entende que não vale à pena comprar o imóvel próprio, mais tarde acaba aderindo e até mesmo expandindo, colocando imóveis também na sua carteira de investimentos.

Como nem todos podem simplesmente optar por comprar ou não um imóvel, precisamos considerar a questão dos financiamentos. Enquanto o pagamento de aluguéis é considerado despesa, o pagamento de prestações do imóvel pode ser considerado investimento. Se os valores forem equivalentes, mais um ponto a favor do imóvel próprio. Obviamente devem ser considerados imóveis equivalentes. Comparar o aluguel de um quarto e sala com a prestação de um apartamento de dois quartos é no mínimo inadequado.

Eu nunca tive essa dúvida. Sempre tive imóvel próprio e nunca olhei essa questão apenas como investimento. O meu lado psicológico nessa questão falou mais alto do que o financista. Gosto de saber que tenho um teto assegurado para poder arriscar mais em outros ativos e outros tipos de investimentos. Isso mesmo. Uma posição conservadora para poder alavancar investimentos mais promissores. Enfim sempre coloquei essa dúvida apenas na hora de investir, nunca na hora de morar. E, apesar de morar em casa própria, sempre paguei aluguel, como a maioria dos brasileiros. A diferença é que pagava para mim mesmo, para a minha conta de investimentos.

Essa tem sido a minha sugestão para quem optou pelo imóvel próprio. Continue economizando e poupando para comprar outro imóvel. Depois você decide se comprará ou não. Você ganhará duas vezes: aumentará seu patrimônio com a posição financista e obterá tranqüilidade psicológica, trazendo para suas mãos a decisão do que fazer com seu dinheiro, sem a pressão de uma das questões mais polêmicas da área de finanças pessoais: tijolos ou papéis: onde investir?

Álvaro Modernell é colunista de Finanças Pessoais do Vila Sucesso. Palestrante, consultor, autor de livros e sócio da Mais Ativos Educação Financeira, esse especialista te ajudará na tarefa de lidar com o dinheiro

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