Socorro: meu amor está financeiramente doente!

Meu amor está financeiramente doente

Foto: Jamie Grill/Tetra Images/Corbis

E como é que eu faço quando percebo que o amor da minha vida lida mal com o dinheiro? Esta pergunta, que quase nunca é feita mas é muito, muito pensada, e aflige boa parte das consultas que recebo quando o assunto é grana. Normalmente ela vem da seguinte forma: "meu marido gasta demais", "minha esposa gasta demais", "meu namorado é avarento, não quer pagar nada", "minha namorada é pão dura e isso me irrita", "depois de tantos anos juntos meu amor ainda torra o cartão sem me avisar" e por aí vão muitas versões de um problema comum: a falta de sintonia em finanças para o casal.

O primeiro ponto a notar nestes casos é que dificilmente só uma parte está "doente", porque a outra auxilia na propagação da doença. O descontrole financeiro, tanto para quem gasta demais ou de menos, tem a origem na mesma situação, que é a falta de uma boa conversa sobre os rumos das finanças de ambos. Isso se explica facilmente: em meio a tanto carinho, namoro, chamego, parece que falar de dinheiro soa como heresia para muita gente...

As consequências do mau uso do dinheiro são muito conhecidas, mas pouco abordadas: descontentamento com o parceiro que quase nunca é tratado na origem do problema, mas acaba sendo transferido para outra área da relação. Daí começam brigas bobas que descambam na questão financeira e podem se tornar ofensas pessoais porque temos o costume de associar nossa vida financeira ao nosso eu ou ainda ao ego - e nada mais errado.

Conhecer a si mesmo para assim entender como cada um lida com o dinheiro é algo raro, pois não temos incentivos na sociedade para isso. Assim sendo, se você nota que é preciso fazer algo neste sentido para o bem da sua relação afetiva, comece abordando o assunto de forma sutil, para que a conversa possa ser mais assimilada como agradável do que um fardo. Aqui vão algumas dicas:

. Evite abordar a questão financeira quando vocês estiverem com outras pessoas, ou ainda pior se em meio a familiares. Mesmo que seu amor diga algo em público que mereça um comentário crítico, controle-se e deixe para discutir o tema a sós, com calma e linguagem fácil. Explique que o principal objetivo é fortalecer a relação que existe de amor entre vocês - e não fazer da conversa um cabo de guerra para ver quem irá vencer.

. Faça um planejamento financeiro com seu amor de forma sutil: liste numa folha o que vocês pretendem fazer no mês seguinte e de forma divertida, como numa brincadeira, estabeleçam objetivos simples, como "sair para comer uma pizza no local x", calculem quanto poderá custar este objetivo e imaginem formas incomuns de poupar para isso. Se o seu parceiro é gastador, comente que a ideia é realizar este objetivo sem usar o cartão de crédito; se for avarento, comente do prazer que será usufruir de uma pizza sem estourar as contas, com um sorriso no rosto. O importante é associar o objetivo a uma satisfação pessoal.

. Perguntar diretamente sobre dinheiro deveria ser algo simples nos relacionamentos, mas não é, como tem mostrado a experiência. Assim sendo, evite perguntas do tipo: "temos dinheiro?" para quem é gastador ou avarento, porque a resposta não será sincera. Questione indiretamente, com perguntas sutis: "este fim de semana pensei em irmos ao cinema, o que acha? Será que cabe no nosso orçamento?" Assim, uma resposta negativa não parecerá para a pessoa uma confissão de pobreza ou mal estar.

. Em casos onde só um dos parceiros produz dinheiro é preciso sim trazer o tema numa conversa para não deixar que futuramente um dos dois se queixe que o outro gasta demais e só uma pessoa "põe dinheiro na mesa". Definam claramente o que pode ser gasto e de qual maneira para que ninguém se sinta sobrecarregado ou explorado. Se o parceiro é gastador e ao mesmo tempo é quem produz dinheiro, enfatize que seu papel é ajudar numa poupança futura controlando gastos, mas sem controlar a pessoa - em geral, quando se fala em controle financeiro muita gente associa a um controle pessoal, de atitudes, ficando na mão do outro. Nada mais errado.

. Por fim, é importante lembrar que muito ensinamos pelo exemplo. Por isso, analise como é seu estilo de usar o dinheiro e mesmo os recursos disponíveis. Pessoas que desperdiçam, mesmo sendo controladas financeiramente, mostram neste desperdício que dão pouco ou nenhum valor ao que produzem ou mesmo ao que são; pessoas que controlam demais tiram espaço do parceiro e demonstram apego exagerado, que leva a ciúme e descontrole pessoal.

Pense sobre como vem lidando com o dinheiro e faça da sua conduta um exemplo para que o seu amor aprenda de forma natural como ser feliz financeiramente a seu lado. Palavras não ensinam tão bem quanto o que fazemos e demonstramos, tenha certeza!

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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