Será que você está gastando demais?

Ah, que perguntinha complicada: qual a medida do gasto para se considerar dentro da média, abaixo ou acima dela? E mais que isso: como é desagradável ouvir de alguém um questionamento sobre nosso perfil de consumo... Verdade seja dita: quando ouvimos esta pergunta temos um sinal de alerta, porque alguém está observando que o volume consumido parece estar fora de controle. Daí que, antes de brigar com quem tenha soltado esta frase, pense um pouco.

O consumo do jeito que conhecemos - sair à rua e dali ter todas as oportunidades de comprar o que quisermos, ou ainda simplesmente abrirmos a internet para conhecer as mirabolantes ofertas que valem somente para hoje de tudo o que queremos - é algo recente. Você já deve ter ouvido histórias de pessoas que viviam num ambiente rural e que dificilmente precisavam comprar coisas para seu sustento. Ou ainda de pessoas que, há muitos anos, precisavam sair de onde moravam em trajetos de longa duração para realizar uma simples atividade comercial. Em ambos casos, o consumo não vinha até elas, mas sim elas precisavam dos produtos ou serviços oferecidos, muitas vezes somente de um fornecedor, o que não deixava margem para negociação, prazo ou mesmo escolha do produto. Comprava-se o que tinha e pronto.

Hoje temos uma oferta imensa, que por vezes mais nos confunde do que esclarece. Celulares? Mais de trinta modelos. Automóveis? Centenas. Perfumes? Milhares. E como disse anteriormente, esta fartura é um movimento novo, já que até os anos 90 tínhamos, nestes três itens, uma reduzida oferta de possibilidades (isso descontando o celular, que somente se populariza na segunda metade da década).

Muita oferta, sem informação clara e análise gera mais que consumo desenfreado: gera ansiedade. E a ansiedade é um dos principais gatilhos para um consumo compulsivo. Atire a primeira pedra quem nunca ouviu falar de alguém que, em meio a uma situação de ansiedade, fez "comprinhas para relaxar"?

O consumo é fundamental para estimular novos negócios, abrir frentes de trabalho e estimular a pesquisa tecnológica, com produtos mais modernos, mais eficazes e menos dispendiosos. Agora, quando se trata do seu equilíbrio financeiro vale pensar se a velocidade que você faz dinheiro é compatível com a velocidade do seu consumo.

Certamente você ouve falar de celebridades que, somente numa tarde, compram milhares de dólares numa loja, compram bolsas que custam o mesmo que um carro novo, fazem tratamentos estéticos mais caros do que uma viagem a Dubai. E nisso, saliento, não há culpa ou pecado algum, desde que estas celebridades tenham condições de bancar toda esta velocidade consumista. E há o adicional que, fazendo isso, elas geram marketing pessoal. Será que este é o seu caso?

Para avaliar se você gasta demais, a principal medida é a sua análise fria dos seus gastos nos últimos três meses. Veja o quanto gastou, quais itens foram comprados e ainda não usados neste período, e compare com suas entradas de capital - salário, renda - para fazer o balanço. Nada há de errado em consumir até um volume expressivo de recursos quando há uso do que foi comprado, ou que os serviços adquiridos estejam atendendo às necessidades. Veja o caso de quem está reestruturando a vida montando uma nova casa: novos móveis, produtos para o dia a dia, gastos com reforma, etc. Se isso é feito gerando uma grande satisfação para todos os envolvidos sem criar dívidas descontroladas, não temos um consumo desenfreado. Com certeza, dentro de algum tempo, o consumo irá baixar à medida que o novo lar se torne completo, pronto para ser usado e desfrutado. É diferente de quem fica eternamente comprando coisas para casa sem usá-las, e criando dívidas dolorosas por conta disso.


A medida certa para avaliar seu gasto não está em testes que dizem "sim" ou "não". Eles ajudam a dar um cenário, mas o melhor avaliador é o seu bom senso. Lembre-se que o dinheiro que você possui é resultado de uma produção, portanto é de valor. Valor este que não significa tornar-se avarento ou sovina, mas valor que se transforma na qualidade de vida que você quer ter e oferecer para quem ama. A partir disso fica mais fácil analisar seu perfil de gastos, e para concluir, lembre-se que para agradar alguém nada se compara ao carinho, palavras e gestos que não tem preço. Isso vale também para agradar a si mesmo. Não se machuque gerando endividamento, porque ninguém merece isso.

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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