Por que só falamos em dinheiro?

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Foto: Tom Grill/ Corbis

Contas a pagar, economia de energia elétrica, pesquisa de preço nas contas do supermercado, materiais mais baratos na lista escolar das crianças, cabeleireira... Você pensa nessas coisas o tempo todo e no fim do mês precisa estar tudo em ordem e ainda sobrar uma graninha, não é? Mas será que você não está paranóica com quanto gasta e quanto sobra? Se a sua resposta for sim, sem dúvida a sua relação com o dinheiro pode não ser das melhores.

Apesar de poucas pessoas ficarem, de fato, paranóicas com os gastos, o pensamento constante está presente em todos os lugares, em todas as mentes, praticamente o tempo todo. "Dinheiro não é só dinheiro, tem simbolismos, significados psicológicos e poder é um dos principais. Por ser mais abstrato que dinheiro, as pessoas acreditam que ter dinheiro é ter poder e tentam exercer o poder dessa forma", afirma a doutora Vera Rita de Mello Ferreira, pioneira da psicologia econômica no Brasil.

Antigamente, nas escolas, nós não sabíamos quem era rico ou pobre. Esse pensamento não passava pela cabeça. Mas, hoje, isso é visível, seja por um smartphone ou pela marca das roupas. As pessoas acabam se sentindo desvalidas ao não ostentar suas posses. E a especialista explica que, por não haver mobilidade social, todo mundo era mais ou menos parecido naquela época. A preocupação com o dinheiro não existia porque ficava implícito que, nos ambientes de convívio coletivo, as pessoas eram semelhantes entre si.

Apesar de ser tabu no Brasil (ninguém nunca revela quanto ganha), as pessoas se referem às relações de dinheiro mais abertamente. A valorização mais explícita de tudo o que é material é característica intrínseca da vitória do capitalismo e pode explicar o quadro. Outro motivo que nos leva a tocar em assuntos financeiros é apontado por alguns teóricos da área: em períodos em que o mercado financeiro está em alta, as pessoas falam muito mais de dinheiro.

Apesar de todo esse cenário, o grande vilão não é a moeda, mas o consumismo. "Não somos escravos do dinheiro, somos escravos dos nossos impulsos. Muitas vezes porque dá trabalho administrar os próprios ímpetos, temos a ilusão de que com mais dinheiro ficaria mais fácil, compraríamos tudo que desse na cabeça", afirma a psicóloga, mas não é bem assim.

A educação financeira é uma boa alternativa para quem não quer meter os pés pelas mãos. É importante entrar em contato com a própria realidade financeira e saber que o dinheiro não é infinito. "Se chamar atenção para escolhas de curto e longo prazo, ter como eixo a sustentabilidade e vier integrada à psicologia econômica, funcionamento mental e comportamento, a educação financeira pode ser extremamente útil", aconselha Vera Rita.

Sabe aquele desejo incrível de comprar uma bolsa linda? É inconsciente e nunca será satisfeito. Depois de comprar o objeto em foco, outra coisa tomará o seu lugar e o ciclo se alimenta. É muito importante controlar esses impulsos. Efetuar mentalmente sua contabilidade e compartimentar o dinheiro para facilitar a visão do que se tem são algumas das dicas que a Vera nos dá. Esses exercícios de autocontrole precisam ser praticados no presente a todo momento, pois, ou ele existe na hora da tentação, ou não existe de modo algum. Não adianta dizer a si mesma que é só dessa vez, viu?

E as dicas continuam:

1. Entre em contato com a sua realidade, quanto dinheiro você disponibiliza para gastar, assim sempre saberá quando ultrapassar o limite.

2. Peça a ajuda da sua família ou de um profissional. A gente sempre cede às tentações quando trabalha sozinho.

3. Mas cuidado com os familiares. Caso você tenha uma boa relação com eles, a dica anterior funcionará muito bem, mas caso vocês não se deem muito bem, acabarão por se controlar e isso aumentará as rixas entre vocês.

4. Encontre suas próprias estratégias para economizar, seja com listinhas do que comprar ou não passando na frente da loja onde você mais gasta. Só você sabe das suas vulnerabilidades.

5. Deixe lembretes para si mesma, como "demoramos um tempão pra pagar a fatura do cartão, lembra? Que tal sair sem ele?". Deixar na porta da geladeira ou na tela do computador funciona que é uma beleza.


6. Melhore suas companhias. Quando você anda com pessoas endividadas, tende a se endividar, mas se você andar com os conhecidos "mãos de vaca", também vai tender a guardar um pouco mais.

7. Não saia com o cartão de crédito caso esteja endividada. Você estará mais propensa a ceder às tentações.

8. Planeje seus gastos com a cabeça fria, usando calculadora e separando quanto dinheiro você tem para gastar com cada coisa. Fica muito mais fácil administrar.

* Serviço: Doutora Vera Rita de Mello Ferreira, psicologa econômica.

Por Juliany Bernardo (MBPress)

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