Ovos X Barras de Chocolate

Deixei para publicar este artigo depois da Páscoa para não ser taxado de estraga prazeres ou inimigo do Coelhinho da Páscoa. Mas é um bom momento para fazer reflexões sobre o quanto a Educação Financeira pode ajudar a melhorar a qualidade dos nossos gastos e, por consequência, o futuro da nossa própria situação financeira.

Na semana que antecedeu à Páscoa fiz pesquisas de preços sobre chocolates. Escolhi aleatoriamente alguns resultados encontrados, considerando apenas os chocolates populares, e propositalmente um de cada marca para comprovar que se trata de situação generalizada.

Veja a tabela de comparação dos preços de alguns dos chocolates mais vendidos no Brasil:

Chocolate Baton, da Garoto

Ovo de 180g por R$ 17,90. Barra de chocolate de 76g, R$ 2,80. Com o preço do ovo daria para comprar 6 barras de chocolate, equivalentes a 456g. E ainda sobraria troco.

Chocolate Diamante Negro, da Lacta

Ovo de 215g por R$ 21,90. Barra de 70g por R$ 2,80. Com o preço do ovo daria para comprar quase oito barras. Mais de meio quilo do mesmo chocolate.

Chocolate Alpino, da Nestlé

Ovo de 375g por R$ 28,39. Barra de 170g por R$ 4,96. Com o preço do ovo daria para comprar mais de cinco barras. Quase 1kg do mesmo chocolate.

A conclusão óbvia é que pagamos muito mais caro por chocolates em forma de ovos do que em barras. E a desproporção aumenta à medida que os ovos crescem. Quanto maiores e mais vistosos, mais cara fica cada grama de chocolate. Pagamos mais caro pelo que vemos, não pelo que vamos comer.

Por que isso acontece? O que leva as indústrias e o comércio a praticar essas diferenças absurdas de preços?

São vários os motivos. O principal é porque o consumidor se dispõe a pagar mais. Então, cobram mais. Óbvio. Também tem a questão da logística, do transporte, do armazenamento. Sai mais caro transportar e armazenar ovos do que barras. Ocupam mais espaço, são mais frágeis. A embalagem e a exposição também encarecem o produto. E ocupam espaços nobres nos pontos de venda. Isso custa dinheiro. A perda por quebra também é maior. Ainda tem a perecividade. Mas o fundamental é porque a demanda aumenta. Aumenta a procura e aumentam os preços. Os preços sobem e ainda assim acabam alguns produtos. As pessoas chegam a se acotovelar para pagar mais caro. Incrível! Assim os ovos de chocolate vão sempre custar mais caro. E talvez eles ainda paguem alguma comissão para o Coelhinho da Páscoa.

Mas o que nos leva a pagar mais caro por ovos de Páscoa do que por barras de chocolate?

Se o produto destina-se para as crianças, podemos atribuir ao retorno obtido pelos brilhos nos olhos delas. Pelo encanto, pela magia da Páscoa. Não é lógico. Mas é razoável.

E quando os chocolates são para adultos. Pior ainda, para nós mesmos. Por que aceitamos pagar vinte reais por um ovo de chocolate se podemos comprar a mesma quantidade do mesmo chocolate por apenas cinco reais? Difícil entender. Mais uma vez afloram fatores psicológicos, alguns ocultos, que se mostram cada vez mais relevantes no universo das finanças pessoais.

Meu objetivo com esse artigo não é combater a Páscoa, longe de mim. Adoro chocolate e acredito no Coelhinho da Páscoa. Até hoje. Ele passou na minha casa e deixou chocolates para meus filhos de cinco e sete anos.

A idéia é utilizar os exemplos da Páscoa como pontos de reflexão para descobrirmos o quanto podemos economizar com atitudes simples, sem abrir mão da qualidade ou do prazer. Usar a criatividade e a inteligência a nosso favor. Evitar as poderosas armadilhas das campanhas de marketing cada vez mais efetivas e gastar com razão. Não com a emoção. Leve o mesmo raciocínio para a escolha de embalagens, de marcas, de produtos alternativos, de pontos de venda.

O importante é adquirirmos essa consciência. Aprendermos a fazer contas antes de tomar uma decisão financeira como nas compras de páscoa, nas compras de mercado, dos móveis para a casa, do modelo do automóvel. Será que um sensor para chuvas no pára-brisas, um espelhinho do lado do carona e um sensor de estacionamento valem realmente 5 a 10% a mais do valor do carro?

Voltando aos chocolates, perguntei a algumas crianças o que elas preferiam, depois de breve esclarecimento. Um ovo ou várias barras de chocolate. Quando não havia brindes nos ovos de Páscoa, as respostas foram quase unânimes. As barras. Porque perceberam que tinha mais chocolate. Uma simples pergunta já ajudou a despertá-las para essa situação.


Sobre os brindes? Bem, esse assunto merece outro artigo.

Para que não fiquem dúvidas sobre minha crença no Coelhinho da Páscoa. Ele trouxe sim chocolates para meus filhos. Um ovo médio para cada um. Pelo simbolismo. Acompanhado de algumas barras de chocolates e bombons. Saiu muito mais barato do que um ovo grande. E eles ganharam mais chocolate. Ganhamos todos.

Prosperidade a todos.

Álvaro Modernell é colunista de Finanças Pessoais do Vila Sucesso. Palestrante, consultor, autor de livros e sócio da Mais Ativos Educação Financeira, esse especialista te ajudará na tarefa de lidar com o dinheiro

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