O dia da fortuna!

Ainda não havia me deparado com nenhum assunto literalmente tão gostoso quanto este. O dia da fortuna ou o dia do nhoque da fortuna. Em todos os dias 29 de cada mês, comemora-se a data.

Sou um fiel praticante do ritual há mais de dez anos. Meu pai faz isso há muito mais tempo. Não ficamos ricos, ainda. Mas imagina se não tivéssemos seguido a tradição, onde poderíamos estar? Apesar de não ser rico, ainda, como gosto de frisar, considero-me um cara feliz e de muita sorte. Isso corrobora uma das versões da tradição. Aquela que traduz fortuna como boa sorte. Isso o nhoque da fortuna me deu bastante. Quanto a dinheiro...

Quanto a dinheiro também ganhei algum. Sendo o nhoque um prato barato, à base de batatas e farinha, tentei imaginar o quanto economizei nesses anos todos comendo nhoques pelo menos uma vez ao mês. E o melhor: ganhei e gastei dinheiro com prazer, a base do que prego quando falo de educação financeira. Fiz isso comendo o que gosto, geralmente bem acompanhado de amigos que cultivei ao longo de tantos anos, à volta de tantas e tantas mesas de nhoque.

Se o inventor dessa onda foi algum produtor de batatas ou de trigo, bem que eu mereceria uma comissão, por tanta gente que já cativei para essa tradição!

Aliás, no mundo capitalista em que vivemos, é muito fácil encontrar restaurantes e cantinas difundindo a tradição. Alguns incluem no cardápio notas de um dólar ou um real para atrair a freguesia. As variedades também são inúmeras, de nhoques de mandioca a verdadeiras almôndegas de espinafre, tudo para atrair fregueses. Quem também lucra muito com essa brincadeira são os garçons. Não são poucas as pessoas que depois de algumas taças de vinho esquecem o dinheiro embaixo dos pratos. São Genaro deveria ser considerado o patrono dos garçons. Isso sim seria justiça.

Mas esse hábito alimentou também meus investimentos. Diz uma versão da tradição que o dinheiro colocado embaixo do prato deve ser guardado pelo menos até o próximo dia 29. Costumo fazer isso, muitas vezes colocando as notas no cofrinho, hábito que nunca perdi. Passados os trinta dias, mando o dinheiro para a conta de investimentos e lá vai mais uma gordurinha. Essa tradição ajuda a cultivar bons hábitos. A disciplina da poupança ganha um importante aliado.

Um dentista amigo, após conversarmos sobre esse assunto, transformou o dia 29 no seu dia da poupança. Todo dinheiro recebido de consultas naquele dia virava intocável para o consumo. Como ele trabalhava de segunda a sexta, em média vinte dias por mês, conseguiu poupar mais uns cinco por cento da sua renda equivalente a um aumento de cinqüenta por cento do valor que ele vinha poupando, os tradicionais dez por cento da sua renda. Isso é saber tirar proveito das tradições. Junto com esse hábito foi perceptível a melhora na sua situação financeira.

Veja que educação financeira não se pratica apenas com hábitos ortodoxos. Tudo é válido. Também não são raras as vezes que brotam à mesa, motivados pelo nhoque da fortuna, discussões sobre a tradição e outros hábitos financeiros. Uma vez mais se faz presente importante fator de educação financeira: falar sobre dinheiro. Falar e ouvir. Trocar experiências. Enfim, desmistificar o tabu de que sobre dinheiro não se fala. Também para isso existem os amigos. Por sorte nessa hora deixam as crianças pelo menos ouvir sobre o assunto. Para algumas, são as únicas lições de educação financeira que recebem. E são dadas somente a cada trinta dias, todo dia 29.

Enfim, a todos que cultivam essa deliciosa tradição, o meu brinde.

Aos demais, o convite para participar. Aproveitem para refletir o quanto é importante a persistência e a sistematização no hábito de poupar. Educação financeira também se cultiva à mesa, rodeado de amigos, e com um bom vinho para acompanhar.

Álvaro Modernell é colunista de Finanças Pessoais do Vila Sucesso. Palestrante, consultor, autor de livros e sócio da Mais Ativos Educação Financeira, esse especialista te ajudará na tarefa de lidar com o dinheiro

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