O apagão offline

Tanto faz se foi um blecaute ou um simples apagão, mas o fato é que todos ficaram sem luz - ao invés do "luz para todos", foi um "luz para ninguém"- e mesmo sem luz foi um tal de enviar mensagens seja via torpedo ou via twitter comentando "como vai ser se demorar e acabar minha bateria?", "aqui está sem luz, e aí?", entre outras mensagens que misturaram desespero, medo e questionamento.

Como era tarde, mais de 22h, nada demais: aproveitar o escurinho e dormir angelicalmente. Soube depois que a eletricidade só voltou depois das 2h da manhã e perplexamente notei que no dia seguinte tudo estava diferente por conta da noite literalmente escura: nem os bancos funcionavam adequadamente (me refiro a agências, não só internet banking!) e as pessoas voltavam como de um transe coletivo sem a eletricidade. Todos ficaram offline.

Claro que a falta de luz afetou concretamente quem precisa dela para viver, como vimos no dia seguinte os relatos de problemas em hospitais e para acamados que dependem de nebulizadores e outros sistemas elétricos de suporte à vida. Mas no geral o que incomodou o ser humano comum foi a sensação de insegurança, que a falta da energia fez concretizar para muitos; é certo que houve alguns que simplesmente deixaram o tempo passar, sem que isso os afetasse.

Dá para não se afetar pela falta de luz? Sim. A eletricidade abundante como conhecemos é um fenômeno recente, com pouco mais de 100 anos, e menos tempo ainda considerando diversos lugares no Brasil - e há pontos onde, em 2009, ainda não há luz elétrica para todos. Claro que é desconfortável, principalmente para quem estava com o freezer cheinho pós compras, o que foi meu caso. Mas o episódio mostrou, entre outras coisas, o quanto as pessoas estão dependentes de estímulos elétricos na vida. Houve quem não conseguia dormir porque a televisão não estava ligada, ora!

E o sentimento de não poder usar o computador, seja porque não tinha nobreak ou a bateria não agüentaria o suficiente? E a ansiedade pela demora no restabelecimento da energia? Fatos concretos: durante as horas de apagão poucos acidentes aconteceram, não foram notificados mais assaltos ou roubos do que em dias semelhantes, mas com luz. O tráfego fluiu bem pela noite, embora pela manhã semáforos dessincronizados atrapalharam a chegada ao trabalho de muita gente. Enfim, o apagão veio, ficou um bom tempo e foi embora.

Será que somos tão frágeis e suscetíveis que a falta de energia elétrica, mesmo que momentânea, consiga nos desestabilizar? Precisamos tanto de luz para evitar o contato com a nossa noite escura, o nosso isolamento? Acredite: ouvi de várias pessoas que, já que não havia luz, era melhor ir dormir porque não havia nada o que fazer, "pois sem televisão, celular ou internet não sobra nada"...

Nesta hora pensei o quanto estamos dependentes de coisas que não necessariamente nos aproximam aos outros e abrem possibilidades de felicidade diferentes da maioria. Conversar com amigos ou mesmo vizinhos, como era comum há duas décadas, um indo na casa do outro, é algo impensável para os internautas. Olhar o céu, observar que a noite estava mais cheia de estrelas por conta da falta de luz na rua não foi algo que as pessoas deram tanto crédito. Houve mais foi reclamação.

Embora o apagão seja algo que deva ser evitado por meio de políticas públicas de energia, os pesquisadores do tema alertaram que é impossível impedir que isso novamente aconteça. Os engenheiros sabem que toda obra é suscetível e sempre há risco; procura-se minimizar e evitar que ele ocorra. Mas o lado curioso do apagão foi a reflexão do quanto se depende da luz para a relação social, o viver em sociedade. Quão dependente o indivíduo se torna dos instrumentos, das ferramentas para interagir e viver com lazer, diversão e mesmo afeto.

Experimente, mesmo sem o apagão ou a falta momentânea de energia, observar o seu cotidiano e suas relações. Serão elas dependentes da luz? Serão elas mais virtuais, externas, do que concretas, com cheiro, cor, proximidade física e feitas mais como ator do que espectador? Será que você está atuando na vida ou observando a atuação dos outros, vivendo a emoção dos outros e deixando a vida passar pelo olhar dos outros?


Pense nisso e não espere para ficar sem luz de novo...

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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