Não compre sapatos em 72 vezes

Parece inacreditável, mas não é. Tem gente comprando sapatos, roupas, chocolates e cerveja em prestações para pagar ao longo dos próximos 6 ou 7 anos. Até mesmo a pipoca e o cineminha do final de semana têm sido financiados em suaves prestações, ao longo de muitos anos.

Não existe mágica. E como se diz no mercado, não existe almoço de graça. Essa conta terá que ser paga um dia. E tenha certeza: será muito salgada.

As ilusões do crédito fácil, muitas vezes incentivado por instituições financeiras, e às vezes até pelo governo, são verdadeiros cantos da sereia. Permite inicialmente a satisfação do consumo imediato de bens e serviços antes inacessíveis ao cidadão comum, gerando uma falsa sensação de melhoria do poder aquisitivo.

E todo mundo gosta do que é bom. Quem experimenta boas sensações sente vontade de repeti-las. E uma coisa puxa outra. As taxas de juros, embora entre as mais altas do mundo, são suaves em relação ao nosso histórico recente. E o brasileiro pensa mais no valor da prestação do que na taxa de juros - claro sinal de falta de educação financeira. O cidadão toma um pequeno empréstimo, depois outro, a seguir mais um, quando a soma das prestações fica elevada aparece uma oportunidade para alongar as dívidas, ou seja, aumentar o prazo, mesmo que encarecendo o custo final, mas reduzindo o valor da prestação. O orçamento volta a ficar folgado. Então, muitos voltam a contrair novos empréstimos. Sem perceber estão enfiando a cabeça em um buraco sem fundo.

Ainda têm as carências. Um verdadeiro crime social contra a população menos esclarecida, aí incluídas pessoas com renda e padrão cultural elevados, mas ignorantes nas questões financeiras. Admitir empréstimos para o consumo com carências de três, seis e até nove meses como o mercado vem praticando deveria ser considerado um crime contra o sistema financeiro. Mas não é. Pelo contrário. Há gestores da nossa política econômica que se orgulham da expansão do crédito, ainda que descontrolada.

Mas até quando vai durar essa ilusão? Até quando a corda do endividamento desmedido vai permitir que as pessoas que hoje já convivem com elevado endividamento possam respirar, possam comer e sobreviver. Certamente essa bolha não poderá durar muito. A ameaça da inflação voltou a rondar a nossa economia. Os gestores de risco dos bancos começam a perceber que quando os primeiros fecharem as torneiras pode faltar água para muita gente. O exemplo da crise americana deixará mais do que cicatrizes. Trará também ensinamentos que serão aplicados ao nosso mercado.

O que fazer, então, para não ser arrastado por esse redemoinho? Simples. Manter-se afastado das dívidas. Não necessariamente de todas, mas certamente aquelas relacionadas ao consumo.

Financiar a casa própria em 15 anos, o carro novo em 3 e a faculdade dos filhos não é necessariamente ruim. Mas, convenhamos. Estar endividado pelo consumo de bens supérfluos, envolvido pelos famosos empréstimos consignados, e continuar comprando sapatos e roupas de grife para serem pagos em 72 prestações, certamente não é uma decisão financeira inteligente.

Álvaro Modernell é colunista de Finanças Pessoais do Vila Sucesso. Palestrante, consultor, autor de livros e sócio da Mais Ativos Educação Financeira, esse especialista te ajudará na tarefa de lidar com o dinheiro

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