Filho, vamos falar sobre dinheiro?

Filho vamos falar sobre dinheiro

Fotos: John Smith/Corbis

Esta sugestão tem causado certas "ondas de calor" em muitos pais e responsáveis pelas novas gerações, considerando o que acompanho no meu cotidiano em consultoria. O principal fator que atrapalha o diálogo é o fato que a maioria das pessoas não sabe quando começar a falar em dinheiro, como orientar e como corrigir comportamentos já instalados. Visando facilitar a tarefa, recolhi as principais perguntas que incomodam os adultos ao tocar no assunto crianças/jovens e dinheiro.

Quando posso começar a falar de dinheiro com meus filhos? Deixo para eles começarem a me perguntar para então responder as dúvidas que vão apresentar? - Deixar que os filhos abordem o assunto dinheiro é como esperar que eles perguntem: "quando vocês vão falar comigo sobre sexo", ou seja, nunca. A criança já está observando como os adultos ao redor dela lidam com compras, pagamentos, mesmo que pareça que elas nem se interessam - mas estão ligadíssimas! Quanto à idade ideal, quanto mais cedo melhor, sendo que a média de idade que noto ser a adequada é a partir dos três anos. O quanto antes a informação sobre fazer dinheiro, poupar, controlargastos e evitar gastar excessivamente for explicado para a criança ou adolescente melhor. Lembro que muito do que aprendemos vem pelo exemplo, assim, se os pais forem gastões, muito provavelmente os filhos seguirão o mesmo caminho.

O que posso fazer para ensinar sobre dinheiro para uma criança pequena? - O aprendizado lúdico, com jogos e brincadeiras, consegue aliar duas coisas importantes: o valor do dinheiro e a matemática. Mostrando as moedas e explicando a sequência de números (um, dois, três...) além dos conceitos simples de soma, a criança entende que dez moedinhas de R$ 0,10 correspondem a um real, e que cinco moedas de um real correspondem a uma nota de cinco reais, aumentando lentamente. Outra ideia é levar a criança para fazer compras e pedir que ela ajude na soma da despesa também é um bom treino. A mesada é algo fundamental para ajudar no aprendizado da poupança e consumo.

Meu filho adolescente fala que quer uma conta corrente, não é muito cedo para querer usar cheques, cartão de crédito sendo que nem trabalha ainda? - A questão da responsabilidade é o que irá nortear esta decisão: se você percebe que seu filho tem posturas responsáveis quanto a poupar e gastar o dinheiro da mesada, pode incentivá-lo a acompanhar a evolução, a princípio, da poupança. Se por uns seis meses ele continuar agindo com responsabilidade, pode começar a pensar em um cartão pré-pago para recebimento de mesada que tenha o recurso de dali mesmo sair o pagamento regular para a poupança. Mas isso deve ser feito com cautela, e se você perceber que ainda não é hora, esclareça isso ao seu filho e incentive que, por um ano, ele poupe e controle a mesada. Será um período de maturação importante para ambos: pais e filhos.

Devo dar mesada, ou deixo para dar o dinheiro quando meu filho pedir? - Não espere que, no futuro, seu filho esteja trabalhando e tenha de pedir dinheiro para o chefe... e portanto, estabeleça a mesada com regras idênticas a um salário: data certa de pagamento (e não esqueça de pagar a mesada!), valor definido e orientação no uso do dinheiro. É fundamental que a criança ou adolescente tenha experiência com sua mesada entendendo que ela funciona como um salário. Assim, se ele gastar tudo, não irá receber mais dinheiro até que chegue a nova data de pagamento da mesada.

Meu filho gasta mais do que a mesada, sempre - Imagine como seria o mundo se pudéssemos pedir aos nossos chefes um "suplemento de salário" porque recebemos o nosso regularmente, na data certinha, mas acabamos "gastando tudo"... Impossível, não é mesmo? Isso também se aplica ao caso dos filhos que gastam tudo, porque eles sabem que, se gastarem, os pais irão pagar "aquele tantinho que faltou" sempre que precisarem. Detalhe é que levarão este aprendizado para o mundo empresarial, o que explica o altíssimo volume de endividamento do brasileiro, como apresentado recentemente num estudo da Serasa Experian, que apontou aumento no endividamento de 21% em 2012. É muito desta cultura, de "paternalismo", que justifica o gasto excessivo porque há sempre alguém "mais poderoso" que pode arcar com o prejuízo.


Quero acompanhar o que meu filho faz com o dinheiro, mas sem parecer "enxerida" - Lembre-se que, como pais ou responsáveis por crianças e adolescentes, devem acompanhar todos os passos na evolução segura, o que inclui o que fazem com o dinheiro. É como orientar na tarefa escolar: veja o que fizeram e oriente, sem, no entanto, criticar escolhas que o filho tenha feito mas que não tenham trazido algum prejuízo. Somente opine quando for algo que considere inadequado, como a avareza ou um comportamento perdulário, porque isso precisa de orientação para não se tornar algo permanente. Lembro que é importante explicar sobre empréstimos, pois crianças e adolescentes sempre se deparam com situações desta natureza, entre colegas - e isso deve ser evitado ao máximo! Se o filho esconde o que faz com seu dinheiro será importante ter uma boa conversa esclarecendo que as finanças da família devem ser compartilhadas nas informações de modo a não gerar problemas futuros. A transparência é algo necessário até para que o jovem contribua com a família arcando com algumas despesas já que produz dinheiro e usa dos recursos da casa.

Finalizo lembrando que informação sobre finanças e consumo é importantíssimo não só no diálogo com crianças e adolescentes, mas incluindo todos os membros da família para que todos entendam claramente o que isso significa e façam da família um time de economia

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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