Ensine as crianças a serem parceiras na economia familiar

Ensine as crianças a serem parceiras

Foto: Hero/Corbis

Muita gente me pergunta sobre como reduzir gastos, diminuir despesas e criar mais recursos financeiros, e sempre explico que qualquer mudança deve incluir os familiares: esposo ou esposa, filhos e agregados. Em geral, quando menciono a família há um sentimento de dificuldade: "mas eles não colaboram..."

A questão que precisa ser observada é que toda mudança começa com a conscientização: há um problema que precisa ser resolvido. Assim, pensando em solucionar e não criticar é que começa o caminho para ensinar aos membros da família, sobretudo crianças, o conceito de economizar para garantir tranquilidade material não só para quem trabalha e traz dinheiro para casa, mas para todos os elementos da família. Isso é algo fundamental para que todos se sintam envolvidos numa nova postura no uso do dinheiro e no consumo.

Criticar e apontar que as crianças querem tudo o que veem no supermercado ou no shopping de nada ajuda, até porque elas vão a estes lugares por indicação dos adultos e assistem propagandas massivas de novos produtos para consumirem o tempo todo, seja na TV ou internet. Daí colocar a responsabilidade nas costas das crianças e adolescentes é mirar na direção errada: a questão está em ensinar os jovens desde cedo que tudo pode sim ser comprado, adquirido, desde que com planejamento e bom senso, usando o caminho da razão e não o da emoção.

Crianças são criativas e os adolescentes imediatistas, querem tudo logo e não aguentam esperar. Com o dinheiro podemos ensinar valores que irão ajudar muito no futuro: a criatividade em pensar em formas de fazer dinheiro e o conceito de tempo e movimento para alcançar objetivos que vão além do prazer imediato. Assim sendo, listei algumas dicas para estimular a economia na família para as novas gerações:

. Crianças pequenas podem e devem conhecer o dinheiro desde cedo: com três anos uma criança tem noção que há uma troca entre notas ou moedas e certos bens. Mostre a ela moedas, explique seu valor e faça comparações do tipo uma nota de R$ 2 equivale a cinco moedas de R$ 0,50 ou duas de R$1, e com este valor é possível comprar uma barra de chocolate de R$ 2, ou duas barras de R$ 1, ou quatro bombons de R$ 0,50. Ao mesmo tempo em que a criança entende o conceito de valor desenvolve os primórdios do raciocínio matemático.

. Crianças maiores, que entendem a relação dos valores do dinheiro devem ir no supermercado com os pais com a seguinte missão: com calculadora na mão, fazer com que a compra não saia mais cara do que um certo valor. Defina o quanto vai gastar, faça uma lista e estimule o pensamento da criança para que ela veja a atividade de fazer compras com itens determinados e um orçamento claro um jogo onde ela ganha pesquisando o que tem o melhor preço ou a melhor relação custo benefício. Faça-a participar da compra de forma lúdica e divertida.

. Adolescentes ou crianças já crescidas sabem que precisam economizar, mas não o fazem porque não tem um objetivo claro a alcançar. Converse com o jovem e pergunte o que ele gostaria de comprar e analise o valor. Estabeleça um plano de como conseguir juntar o dinheiro, de qual maneira e em quanto tempo. Explique que, para alcançar o objetivo, serão precisos cortes no consumo de certos itens para economizar - e nisso vale incluir a despesa doméstica, como água, conta de celular, luz e outros custos - enfatizando que isso pode levar um certo tempo e que precisará do comprometimento e do empenho do jovem e seus familiares.

. Pagar por tarefas domésticas não é a forma mais educativa para ensinar a economizar, até porque ajudar a família a manter a casa em ordem é algo que todos os membros familiares devem fazer sem exigir remuneração - todos estão comprometidos com o bem estar da casa e assim não precisam ser pagos para viverem juntos sem sobrecarregar tarefas a um ou outro. O que pode ser remunerado é a atividade extra, como o jovem que lava o carro dos pais (que iriam pagar um serviço de terceiros) ou algo que não é atributo do cotidiano familiar, como pintar paredes ou colocar pisos.

. Explicar a economizar para crianças e adolescentes implica em ser o exemplo: de nada adianta pedir para que controlem o uso da água se os adultos são os primeiros a desperdiçar. O discurso tem que ser coerente com a atitude, até porque ensinamos muito mais por nossas ações do que pelas nossas palavras. Seja o exemplo de economia da família e faça com que os outros adultos tenham a mesma postura.

. Cuidado com informações sobre seu salário ou investimentos para crianças e adolescentes que, em sua ingenuidade e mesmo pretensão, podem revelar para terceiros - colocando tanto a questão do risco de exploração pelos marginais quanto gerando conversas indesejáveis, vindas de terceiros, sobre quem tem mais ou menos. Evite também divulgar dados confidenciais a crianças e jovens, como senhas de banco ou internet, valores pagos para o Fisco, valores de compra de bens duráveis para que sua vida não se torne extremamente exposta a desconhecidos.

. Os valores das despesas domésticas podem ser divulgados aos pequenos e adolescentes desde que com critério: explique o valor de uma conta de luz comparando-a com meses anteriores, estimulando uma análise de economia, se houve redução ou aumento e qual o motivo que pode ser a estação do ano, o aumento de visitantes ou outros aspectos. Mostre que há uma data para pagamento e que deve ser feito em dia, para não gerar multas e juros.

. Adolescentes querem saber de ter coisas, mas nem sempre se interessam pelo seu valor, portanto explique e compare custos para facilitar o aprendizado estratégico deles com a economia. Compare quanto custa uma bicicleta incrementada desejada mostrando que com o valor é possível comprar um fogão ou ainda outro bem durável. Isso ajuda também o jovem a valorizar e conservar o bem que tem ou irá ter de forma planejada.

Muita gente acha complicado explicar economia para os filhos porque, no fundo, não se sente preparada por ainda se achar descontrolada financeiramente; isso é um engano. Só a vontade de ensinar e estimular crianças e adolescentes a poupar para o futuro demonstra maturidade e liderança em gerir as próprias finanças. Experimente ensinar seus filhos e verá que quem mais irá aprender a economizar e valorizar cada centavo conquistado pelo seu trabalho ou produção será você. Portanto, comece já!

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

Comente