É possível cobrar com classe

cobrar com classe

Foto - Istock/ LittleBee80

Atire a primeira pedra aquele que considera a tarefa de cobrar, seja o que for, algo extremamente simples e fácil. No mundo ocidental, que tem uma forte parcela de culpa no processo da educação desde a infância, a palavra "cobrança" tem um tom de repulsa bem considerável. Embora todos queiram cobrar - porque a contrapartida é receber, e isso em geral é muito bom! - poucos querem fazer isso por várias razões: vergonha, timidez, insegurança, desconforto e mesmo preguiça.

Há quem tenha preguiça de cobrar, inclusive quando isso envolve dinheiro, e na preguiça acaba deixando a cobrança no esquecimento. No entanto, quando este esquecimento é bem resolvido - como quando você decide que vai esquecer o livro que emprestou e aquele dinheiro que ficou mais como uma doação do que um empréstimo - tudo bem. Ruim é quando o esquecimento ficou "atravessado", mal digerido. Como se o esquecimento fosse um ossinho entalado na garganta que não sai, mas atrapalha.

Então, voltando ao nosso tema título, a solução é cobrar. E cobrar bonitinho, mesmo que o tempo tenha passado - mas não tenha caducado a dívida - e com elegância. Ponto número um: numa negociação sempre procure manter o tom, a calma e clareza. Para cobrar vale o mesmo. Cobrar não humilha ninguém quando é feito de forma clara, sem emoções descontroladas. Diga claramente que quer receber o livro que você emprestou e está com a pessoa há algum tempo. Não invente histórias impossíveis para justificar sua cobrança - ah, o espírito da minha vovozinha apareceu em sonho perguntando daquele livro que ela me deixou... - e não gaste energia desnecessária se desculpando, do tipo "olhe, eu sei que é chato e nem queria fazer isso (então pronto, não faça...)".

Evite a tentação de fazer uma cobrança colocando terceiros, quartos e quintos no meio da conversa. Procure a pessoa para quem você emprestou ou cedeu algo e simplesmente questione quando a pessoa poderá devolver ou renegociar o bem. Não se altere se a pessoa se alterar, porque isso pode levar a um descontrole desnecessário. Se houver alteração emocional por parte da pessoa, mantenha a calma e argumente sempre com bases racionais. Pode ser que, naquele momento quando você tomou a iniciativa de cobrar a pessoa estivesse com problemas e acabou por descontar os mesmos em você. Mas isso não é desculpa para não atender ao que você pleiteia.

Normalmente, precisamos tomar a iniciativa de cobrar porque muita gente não tem a mesma coragem. Ponto para nós, que tomamos a frente não só desta cobrança, mas também dos rumos que damos nas interações sociais. Melhor deixar a vergonha de ladinho em favor de nossos interesses do que sofrer pela ausência deles, não é?

E se você for cobrado, use da mesma prerrogativa. Lembre que é direito de quem emprestou algo ou colocou algum bem ou responsabilidade em suas mãos. Não é direito da pessoa agir de forma a humilhar ou rebaixar, mas é dever seu dar uma satisfação sobre o tema em foco. Gosto de lembrar que, na maioria dos casos, as negociações são feitas entre pessoas que se estimam, e, portanto esta mesma estima deve prevalecer para que a negociação aconteça cordialmente.


Lembre-se que a cordialidade é algo para ser exercido no dia a dia como um exercício de negociação e pré-requisito para uma sociedade mais ética e bem mais justa. Comece já!

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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