É mais fácil ter 30 anos hoje ou na época dos nossos pais?

É mais fácil ter 30 anos hoje

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Nas décadas de 70 e 80, as pessoas entravam no mercado de trabalho mais cedo, mesmo com pouca instrução, e muitas constituíam família e estabilidade antes dos 30 anos. Atualmente, a exigência por conhecimento é maior e a competição é mais acirrada. Com isso, os sonhos de casar e ter filhos já não são tão prioritários como antigamente e a ideia de se manter na mesma empresa por anos a fio não existe mais. Então, se compararmos a vida de nossos pais quando tinham 30 anos e a nossa nos dias de hoje, sob o aspecto econômico, quem se deu melhor?

Para os economistas consultados pelo Vila Mulher, as conquistas foram distintas, mas, de certa forma, nossos pais sofreram mais com a economia. "Tomo como base os pais que possuem hoje 60 anos. Há trinta anos, década de 80, portanto, o Brasil sofria com inflação acelerada, dívida externa, desemprego, salários corroídos pela inflação e ditadura", comenta Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da PUC-SP nos cursos de Administração e de Economia. "Por outro lado, a vida de nossos pais era mais fácil com relação às questões de segurança pública e o tempo para aposentadoria."

Andrew Frank Storfer, membro do Conselho de Administração da Anefac - Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, concorda com Cristina e lembra que neste mesmo período o Brasil tinha saído da época do milagre econômico com uma dívida enorme e inflação alta. "Para se ter uma idéia, em 1985, era em torno de 19% ao mês, superou 50% ao mês em dezembro de 1989 e 73% ao mês em fevereiro de 1990. Isso mesmo, ao mês!"

Sotfer diz ainda que nossos pais sofreram com diferentes planos econômicos e "pacotes" que assustavam a todos - Plano Cruzado (1986), Plano Bresser (1987), Plano Verão (1989) e o Plano Collor (1990). "Até que veio o Plano Real, em 1994, que começou a mudar de fato a economia do País. Mas antes disso, imagine como era difícil planejar uma vida, desde as compras de alimentos até mesmo um imóvel", diz. "Hoje vivemos uma época de economia mais estável, com mais emprego."

Já nossos pais, em 1979, conforme explica Cristina, sofreram com a escassez de produtos importados, por conta da alta do preço do barril de petróleo durante o chamado "Segundo Choque do Petróleo". "O acesso a produtos importados era bastante limitado. Muitos adquiriam itens vindos do Paraguai, como bebidas, cosméticos e eletrônicos. O mercado nacional era cativo dos produtores locais, que pouco sofria concorrência", diz. "Além disso, por medidas recessivas recomendadas pelo FMI, muitos de nossos pais perderam seus empregos após anos de dedicação a uma mesma empresa e alguns não conseguiram recolocações."

A professora lembra ainda que a década de 70 foi de rápido crescimento econômico, mas, ao mesmo tempo, não era fácil viajar para o exterior e o transporte aéreo era um produto de luxo. "A renda per capita praticamente duplicou e o ritmo de expansão era comparável ao crescimento chinês da atualidade. O crédito barato estimulou um alto nível de endividamento. E a necessidade de gerar recursos para pagar a dívida externa nos custou inflação, desemprego e muitos anos de sacrifício."

Bens materiais e relacionamentos

Quando a comparação entre as gerações envolve bens - casa e carro - Cristina crê que as dificuldades foram e ainda são significativas. "Vi muitos colegas de meus pais pagarem anos e anos um financiamento e ainda possuírem um saldo devedor maior que o valor do imóvel". E atualmente, além dos valores exorbitantes dos imóveis, Andrew defende que muitos jovens preferem alugar a comprar um imóvel: "O trânsito nas grandes cidades é estressante e inviabiliza grandes deslocamentos de casa para o trabalho. Assim, comprar um imóvel pode imobilizar alguém que gostaria de morar mais perto do trabalho".

Sobre a aquisição de um carro, Cristina comenta que na época de seus pais não havia tantas opções e tampouco os chamados carros populares. "Ainda testávamos o carro a álcool, usávamos ‘afogador’ e esperávamos minutos sem fim para aquecer o motor" lembra. "Hoje temos uma grande variedade de carros para escolher, motor bicombustível e acesso a financiamentos com prestação fixa e previsibilidade de pagamento. Difícil e caro ficou pagar o seguro do carro", completa.

No quesito casamento, Andrew defende que os costumes mudaram e muito. "Nos anos 70 e 80 as pessoas se casavam mais cedo, com idades entre 21 e 25 anos. Hoje as mulheres têm mais independência, participam mais do mercado de trabalho fora de casa, e decidem se consolidar no trabalho antes de se casar", explica. "As relações pessoais são outras também. Temos menos namoros formais e longos, o que aumenta o número de encontros casuais e curtos. Isso faz com que as pessoas se casem mais tarde, entre 25 e 30 anos."

Cristina completa: "Vejo a situação atual como mais favorável quando comparada à época de nossos pais. Temos liberdade de expressão, falamos sem medo e não dormimos sem saber qual de nossos amigos não encontraremos no dia seguinte."

Mas o que definitivamente está mais difícil, segundo a professora da PUC, é a aposentadoria. Para ela, dificilmente teremos as mesmas condições, seja em tempo, idade ou valor. Outra dificuldade apontada por ela se refere ao transporte. "O sistema de transporte público não acompanhou o crescimento populacional e os investimentos nesta área só serão sentidos a longo prazo. Talvez com muito esforço e atribuindo prioridades, possamos vê-los funcionando."

Conhecimentos acadêmicos

Cristina entende que na época de nossos pais, quem conseguia obter uma educação superior formal tinha fácil ascensão profissional. Ao mesmo tempo, as diferenças salariais eram mais elevadas e era possível ganhar dinheiro com a inflação para aqueles que entendiam um pouco de economia.


Sobre o mesmo tema, Andrew aponta a universalização do estudo como um ponto positivo nos tempos atuais. "Muitos (e muitos mesmo) têm um curso superior. Tudo bem que qualidade é outra história, mas têm. Ter um MBA já quase não é também um diferencial". Mas Cristina pondera: "A educação fundamental e média era, apesar de já decadente, aparentemente melhor."

Quem tem 30 anos hoje se beneficiou com a invenção de Tim Berners-Lee: a internet. A rede mundial foi um divisor de águas. "Hoje se tem acesso instantâneo a comparações de preços, ofertas de emprego, busca de pessoas etc. Isto faz com que a competição em diferentes setores seja muito mais acirrada", afirma Andrew.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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