Deve-se ou não recompensar as crianças?

Pais interessados na educação financeira de seus filhos costumam perguntar: deve-se ou não recompensar as crianças pela realização de tarefas domésticas ou pelo bom desempenho na escola?

Indo direto ao ponto, sou contrário a recompensar, de maneira condicional e sistemática, às crianças pela realização de tarefas simples como guardar os próprios brinquedos, retirar sua própria louça da mesa, dobrar suas roupas ou colocar os calçados no armário.

Também não acho que devam ser “remuneradas” eventuais colaborações nas tarefas domésticas como colocar o lixo na lixeira, ajudar a secar o piso, lavar a louça ou varrer a calçada. Obviamente cada família tem seu estilo e suas necessidades. Devemos pensar nos exemplos apresentados apenas como conceitos, adaptáveis à cada realidade.

Condicionar o pagamento da mesada ou de prêmios ao desempenho escolar e à realização dos deveres pode ser ainda mais prejudicial. Atitudes assim podem contribuir para o desenvolvimento de uma personalidade mercenária e gerar uma sensação de não pertencer à própria família, ou seja, a única motivação pode vir da remuneração, não da qualidade de sentir-se parte, de sentir-se responsável também pelo bem-estar e bom ambiente familiar.

Mas isso não significa que não se possa ou deva premiar ou eventualmente remunerar as crianças, como forma de expressar o reconhecimento. Afinal, muitos adultos são motivados pelo dinheiro e são felizes assim, à sua maneira. Também as crianças podem motivar-se com isso, de maneira complementar.

É preciso ficar atento para que a remuneração - dinheiro, brinquedos, passeios, roupas, etc., não assumam um papel maior do que o devido. Mas podem sim auxiliar na motivação ou no direcionamento de algumas tarefas. Um passeio ou presente adicional para o bom aluno pode fazer a criança sentir-se reconhecida, motivada - um reforço ao bom caminho que já vinham trilhando.

Uma criança que tenha constantemente um bom comportamento não teria a sua educação ou formação prejudicadas, se os pais demonstrarem reconhecimento por meio de algum tipo de recompensa, seja ela na forma de carinho, dinheiro ou outro bem material.

Lembrando que isso não deve ser condicional nem regular. Também não é recomendável que seja por fatos isolados ou por períodos de curta duração. Premiar por tirar boa nota em uma única prova é completamente diferente de premiar por manterem média elevada e responsabilidade constante. No segundo caso creio haver mais benefícios do que prejuízos.

Enfocando especificamente a educação financeira, dentro do contexto amplo da educação, esta relação de prêmios/punições pode ser mais direta. Conheci uma família onde os filhos adolescentes ajudavam na pesquisa de preços das compras domésticas, via internet, e ganhavam participação nos valores economizados.

Descontar uma parte da mesada das crianças que desperdiçam água, que saem do quarto sem apagar as luzes, ou que não cuidam das próprias coisas ou estragam as coisas dos outros pode contribuir para o seu nível de conscientização. Afinal, como disse Delfim Neto, “o bolso é o órgão mais sensível do corpo humano”, no caso de adultos, mas também nas crianças há alguma sensibilidade.

Da mesma forma, crianças que se destacam pelo lado positivo podem receber algum tipo de agrado, como reconhecimento, mesmo que às vezes seja em dinheiro ou outros bens materiais. Afinal, apesar de dinheiro não ser, e não poder ser, a coisa mais importante em nossas vidas, não há como negar a importância dele no nosso cotidiano. Não vejo mal em também as crianças perceberem isso, desde que seja feito de maneira responsável.

Álvaro Modernell é colunista de Finanças Pessoais do Vila Sucesso. Palestrante, consultor, autor de livros e sócio da Mais Ativos Educação Financeira, esse especialista te ajudará na tarefa de lidar com o dinheiro

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