Cuidado com muita disponibilidade!

Que as pessoas se esforçam para agradar e assim serem aceitas socialmente é algo afirmado por pesquisadores de comportamento desde o século passado. Entretanto, como diria um famoso estadista recente brasileiro, "nunca antes neste país" tanta gente tem feito tanta força pra agradar, e em vários casos sem perceber, até achando isso um fato natural.

Por isso é bom lembrar que, para cada um de nós, a pessoa mais importante que existe somos nós mesmos. Vale a máxima da aviação: ao acontecer despressurização da cabine, caem as máscaras de oxigênio e a primeira pessoa que tem que colocar a máscara é você mesmo, depois coloque nos filhos, amigos e quem mais precisar de ajuda. Primeiro você, porque se não houvesse você, quem estaria aqui lendo este texto, não é?

Isso faz pensar quanto a muita gente que acaba fazendo tudo para os outros e deixando a si mesmo de lado. Vai desde a pessoa que presta mais atenção e dedica seu tempo cuidando da vida do outro (que pode ser vizinha, amiga, o marido, os personagens da novela... quem quer que seja) ao comum hábito de pessoas que tem pouco recurso financeiro e ainda assim acabam "emprestando para sempre" objetos, dinheiro, talões de cheques, cartões, roupas, carros e assim por diante. E o detalhe é que neste caso quase nunca a pessoa faz isso de alma leve e feliz, mas sentindo o peso desta escolha, que privilegia o outro e deprime a si mesmo.

Se isso faz sentido para você e é fato comum no cotidiano, pare e pense sobre o seu valor. O que é melhor: ser coerente consigo mesmo dizendo não, sem estar disponível o tempo todo para quem quase sempre te procura porque precisa de algo, ou dobrar-se às vontades dos outros somente para não arranhar sua imagem de "alma bondosa"?

Lembro de um cliente que costumava se queixar do movimento de seu salão de beleza, e do fato que recebia muitos pagamentos em cheque pré datados. Ela se sentia mal principalmente porque as clientes que faziam isso não se incomodavam em ir no salão concorrente, mais caro, e pagar à vista, e deixavam para ir no salão da minha cliente quando não tinham dinheiro e assim "poderiam soltar um chequinho". Minha cliente concordava com medo de "perder a freguesia".

Fato que ela, com dificuldade no início, aceitou acabar com os pré datados e trabalhar somente com dinheiro ou cartão. Algumas clientes reclamaram - principalmente as que davam trabalho para receber, pois o cheque era devolvido, daí precisava telefonar cobrando, e as desculpas eram sempre as mesmas,... - mas a maioria aceitou claramente a nova regra de pagamentos.

O resultado foi interessante: a clientela diminuiu, no primeiro momento, mas estabilizou a seguir e melhorou pouco tempo depois, já que minha cliente estava trabalhando com mais satisfação e isso se refletia na qualidade do serviço prestado, tanto dela quanto da equipe, que desta maneira passou a receber na data correta, sem atrasos e de forma organizada. Ou seja, a mudança trouxe uma paz para a dona do negócio e todos os envolvidos. Esta paz veio dos limites, das regras que possibilitaram menor disponibilidade.

A disponibilidade excessiva também transparece nas relações afetivas. A mulher, que normalmente acredita que precisa agradar sempre, fica ao dispor do amado para qualquer coisa, e assim cancela compromissos, fica ao lado do telefone esperando o telefonema que nunca chega, checa o celular e as mensagens a cada cinco minutos para ter certeza que não perdeu o tão ansioso contato, e mesmo com todo este desrespeito considera estas atitudes normais "de quem é apaixonado". Nada menos verdadeiro...

Pessoas inteiras num relacionamento sabem que além da relação casal há outros aspectos na vida, principalmente porque ninguém nasceu amarrado a sua cara metade. E como é saudável ter interesses distintos! Quando ambos tem uma vida rica em realização pessoal, a conversa flui e o amor fica ainda mais intenso porque há a admiração pela outra pessoa, fato fundamental para um relacionamento duradouro e feliz.


Lembre-se que você vem em primeiro lugar, seja financeiramente, afetivamente ou pessoalmente. Sem você, não há mais nada em sua vida, portanto, cuide-se bem. Muito bem.

Suyen Miranda é publicitária e consultora de finanças pessoais, atuando no Brasil, Mercosul, Portugal e Angola. Já foi consumidora compulsiva voraz e tornou-se poupadora e empreendedora, e acredita que toda mulher pode e deve ser autônoma e independente financeiramente. suyen@suyenmiranda.com.br

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