Compradora afetiva

Compradora afetiva

M. é uma pessoa em tratamento. Em suas sessões de terapia, procura livrar-se de um rótulo: o de compradora afetiva. O problema, que leva pessoas a gastarem rios de dinheiro e, muitas vezes, arcarem com dívidas imensas apenas para agradar aos outros é sério e fez com que ela, aos 50 anos, se visse sem uma casa para morar. Por que isso acontece?

"Primeiro, eu não percebia. As pessoas me falavam e isso me incomodava muito. Então, comecei a esconder as compras. Depois dizia que eram presentes de amigos. Não queria reconhecer. Mas o que mais pesou foi a idade".

M. chegava a gastar o dobro do salário que recebia. "Cheguei a vender um apartamento no bairro de Moema (SP) e torrei tudo. Hoje, o imóvel estaria valendo cerca de R$ 180 mil".

Ela ainda não conseguiu resolver a situação. "Terei que reduzir o orçamento, diminuir meu padrão de vida e continuar a trabalhar por muito tempo. Estou tentando seguir a orientação da minha terapeuta. Primeiro cortei os cartões de crédito e o cheque especial. À medida que vou abatendo minhas dívidas, solicito ao banco a redução do limite de crédito, pois se eu tiver dinheiro na conta é fatal. Não é fácil você se manter com equilíbrio emocional sem dinheiro para gastar, principalmente quando gostamos de gastar. Mas estou com esperança".

A psicóloga especialista em Orientação em Finanças Pessoais, Patrícia de Rezende, diz que compradoras afetivas são pessoas carentes, que compram e gastam muito dinheiro para ganharem a atenção e o carinho dos outros. "Estas pessoas usam o dinheiro para evitarem entrar em contato com sensações dolorosas. Por exemplo, às vezes fica mais fácil sair e comprar um sapato novo do que ter de encarar um casamento que não está bem".

A causa para este tipo de comportamento, ela explica, pode estar relacionada à formação da personalidade. "A personalidade se forma até aproximadamente 5 ou 6 anos, quando enfrentamos situações dolorosas e que teremos de superar. Quando isso não ocorre, já adulto, toda vez que o indivíduo se deparar com situações semelhantes voltará a ter comportamentos próprios daquela fase não superada, como uma criança. É comum agradarmos crianças com presentinhos quando se machucam ou ficam tristes. No entanto, com isso estamos impedindo que ela supere aquela dor, e não contribuindo para seu amadurecimento emocional. Assim, quando adulto, é provável sempre buscar nas compras uma forma de alívio para suas dores".

As consequências não são nada agradáveis: dívidas, perda de crédito das pessoas e amizades oportunistas, uma vez que esse tipo de comprador paga facilmente tudo para todo mundo como uma tentativa de garantir seus afetos.


O que fazer para evitar esse tipo de comportamento? Mais: o que fazer para cobrir prejuízos?

"Duas coisas. A primeira, de ordem prática, é procurar um profissional que te ajude a organizar seu orçamento, planejando formas de quitar suas dívidas. A segunda, de ordem emocional, é a psicoterapia. Se a dívida for emocional, não basta cobri-la, é importante entender a razão dela em sua vida. Só assim você consegue manter-se sob controle", diz Patrícia de Rezende.

Por Adriana Cocco

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