Bancos comunitários e moedas paralelas

Bancos comunitários e moedas paralelas

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Você conhece o Real, o dólar, o Euro. Mas sabia que muito mais moedas correm pelas transações comerciais, aqui no Brasil? No Ceará, ‘sábia’ e ‘serra’ são moedas corrente. No Espírito Santo é possível fazer compras com ‘bens’ e ‘terras’ e, em São Paulo, com ‘apuanãs’.

Milhares de Reais estão impressos em cédulas de moedas alternativas, em todo o Brasil. Mas, de onde vem esse dinheiro novo? A resposta está nos bancos comunitários. Eles são o resultado de projetos de apoio a economias populares de municípios de baixo IDH e prestam serviço financeiro solidário em rede de natureza associativa e comunitária, voltados para a geração de trabalho e renda. Esses bancos são de propriedade da comunidade, que também é responsável por sua gestão.

Como apenas a criação desses bancos não é suficiente para impulsionar a economia desses lugares, nasceu a ideia das moedas alternativas - ou sociais. Pensando em girar a economia da comunidade, foram então criados esses novos dinheiros, aceitos apenas pelo varejo local. Eles ampliam o poder de comercialização, aumentando a riqueza circulante na comunidade, gerando trabalho e renda.

Os bancos atuam então com duas linhas de crédito: uma em Real e outra em moeda social circulante. Estas linhas de crédito estimulam a criação de uma rede local de produção e consumo, promovendo o desenvolvimento da comunidade, de fora para dentro.

“Os créditos em Reais podem ajudar no crescimento econômico do bairro ou município, gerando novas riquezas. Mas são as moedas sociais que asseguram o desenvolvimento ao favorecer que essa riqueza gerada circule na própria comunidade”, defende Joaquim de Melo Neto, idealizador do Instituto Palmas.

Em entrevista recente, Joaquim diz que sem as moedas, essas comunidades estavam reproduzindo o sistema colonial, em que a periferia mandava para o centro as riquezas em troca de alimentos e produtos não duráveis. Há quase 10 anos, ele fundou o Banco Palmas, que usa notas de ‘palmas’ e impulsiona a economia de uma favela de Fortaleza, no Ceará.

Bancos comunitários e moedas paralelas

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No site do Banco Palmas é possível saber mais sobre 32 bancos comunitários ativos do Brasil atualmente, além das moedas que cada um utiliza. O banco Amizade, de Irauçúba, atende no bairro do Cruzeiro e tem a moeda ‘cactos’. O Tremenbé, de Itarema, tem como moeda o ‘ita’. O ‘sabiá’ é a moeda do banco Sertanejo, de Choró. Os três se localizam no Ceará.

Para um produtor ou morador ter acesso à moeda social circulante local é preciso fazer empréstimos no Banco Comunitário (sem juros), prestar serviço para alguém da comunidade que tenha o circulante local ou trocar Reais diretamente na sede do Banco. Valei ainda ser membro de algum empreendimento produtivo que negocie parte em moeda real e parte em social e garantir as ‘estalecas’ sociais.

A Secretaria Nacional de Economia Solidária aposta tanto no projeto que motivou uma jornada de inauguração de novos bancos comunitários, em São Paulo. Um deles é o Banco Apuanã, inaugurado no último final de semana e localizado no Conjunto Habitacional Jardim Apuanã, na zona norte da cidade. A gerente do banco, Hilda Pires explicou ao Vila Sucesso que é possível, por intermédio do banco, conseguir empréstimos de consumo, de até 200 ‘apuanãs’ ou de produção, de até 1000. A moeda deles ainda não está pronta, mas a comunidade está ansiosa pela sua chegada da gráfica.

Hilda faz parte do movimento de moradores de bairro e, há mais de um ano se dedica à economia solidária. Primeiro fez um curso, na USP, sobre bancos comunitários, e depois realizou em grupo o sonho da criação de um banco dentro da sua comunidade. “O movimento de moradores, em parceria com a USP e a Secretaria Nacional de Economia Solidária, do Ministério do Trabalho, foram parceiros para que o sonho fosse concretizado”, fala.

Ela explica que no Apuanã, os ‘correntistas’ terão cartões e ‘contas’, onde o dinheiro social poderá ser depositado. A movimentação funciona como num banco normal. Em São Paulo, outros três bancos comunitários já estão funcionando, um em cada região da cidade.

Saiba mais sobre as moedas sociais:

- Para cada moeda emitida, existe no banco comunitário, um correspondente em Real

- As moedas são produzidas com componentes de segurança (papel moeda, marca d’água, código de barra, números serial) para evitar falsificação

- A circulação é livre no comércio local e, geralmente, quem compra com a moeda social recebe um desconto promovido pelos comerciantes e produtores para incentivar o uso da moeda no município/bairro


- Qualquer produtor/comerciante cadastrado no Banco Comunitário pode trocar moeda social por Reais, caso necessite fazer uma compra ou pagamento fora do município/bairro.

- O controle e as riquezas geradas pela moeda, ficam na comunidade

Por Sabrina Passos (MBPress)

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