Vida Corporativa - mais uma vez o mesmo do mesmo

Como sabem escrevo nesta coluna semanalmente, com a preocupação de trazer assuntos e conteúdos inéditos para vocês. É uma prazerosa atividade, que exige uma boa dose de observação e senso de oportunidade, sempre visando um único objetivo (e certamente nem sempre atingido): conquistar a sua atenção com matérias úteis e que agreguem valor ("agregar valor" clichês são uma desgraça, poderosíssimos), diante do oceano de informações disponibilizadas pelo universo da mídia e da imprensa.

Porém antes dessas matérias serem publicadas, existe um cuidadoso processo para as escolhas do melhor tema e da abordagem mais coerente. Mas hoje ocorreu o inesperado. Já tinha como certo o texto que queria produzir, quando fui pego de assalto em uma banca de jornal.

Era só uma inocente caminhada, de dez minutinhos para esfriar a cabeça do escritório antes de começar a escrever. E mesmo assim não fui poupado. Ao passar os olhos no interior da banca, fui atraído para uma matéria de capa, que mais uma vez, abordava o mesmo do mesmo sobre o ambiente de trabalho nas empresas. Algo que pregava a extinção dos profissionais excessivamente especialistas (se bem que, as vezes, acho que especialistas estão fazendo falta), viciados em trabalho e obsessivos; em benefício de uma nova geração dotada de grande capacidade para o relacionamento interpessoal, o convívio com a complexidade de diferentes culturas e o trabalho em equipe. Bem, sem dúvida uma grande verdade, muito coerente.

Mas por favor, quem é que já não sabia disso? Ou melhor: quem é que de fato acredita que essa louvável extinção vá ocorrer? Afinal de contas, esses comportamentos tóxicos sejam tão comuns hoje no dia a dia dos escritórios quanto foram na época em que a cultura corporativa não dispunha de tanto, digamos "glamour".

Mas não basta. Ao final do dia, saindo do escritório depois de enfrentar o ring corporativo, onde os comportamentos saudáveis são muito mais pregados e defendidos do que efetivamente praticados, você, por um instante de descuido pára diante da banca de jornais e lá está ele, o texto em letras garrafais afirmando como inédito e muito inovador, um conceito que você conhece desde muito antes de se formar, mas que até hoje anseia em ver realmente presente nas atitudes de chefes e colegas.

E o mais cômico é o infantil tom de decreto. Algo como: "Você se preparou ser isso? Esqueça! Agora você tem que se preparar para aquilo!" Mais uma vez o mesmo do mesmo, a constante repetição do óbvio e já conhecido, colocado como se fosse a nova última onda.

O risco desse tipo de abordagem, justamente por ser uma cansativa repetição, é o de banalizar um tema tão importante, subtraindo dele a credibilidade e o sentido.

Mas confesso que muitas vezes me sinto vingado. É quando vejo (com freqüência), executivos e executivas lendo essas coisas com um sorriso jocoso e divertido estampado nos lábios.

É a prova inequívoca de que apesar da pobreza dos conteúdos disponibilizados sobre a vida corporativa, profissionais inteligentes preservam a sua capacidade de crítica.

Querem ler o que os faz pensar, refletir, mudar, ou quem sabe preservar. Gostam de rir dos textos, mas no fundo no fundo, gostariam mesmo é de estar atentos lendo algo que de fato faça diferença (olha aí mais um clichê).


Para encerrar, vou fazer uma confissão. Depois dessa, nunca mais escrevo nada em definitivo sem antes dar uma voltinha pela banca mais próxima. Foi ótimo!

Gustavo Chierighini, atento observador do universo corporativo, é fundador e publisher da Plataforma Brasil, especializada em informações e conteúdos de inteligência empresarial. www.pbrasilnet.com.br

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