Uma embaixatriz para se inspirar

Uma embaixatriz para se inspirar

Ela nasceu dentro de um taxi, quando a mãe não conseguiu esperar o carro chegar até o hospital militar, na cidade de Curitiba, no Paraná. O pai, que era médico, fez o parto ali mesmo e a bebezinha foi embrulhada no paletó. Roseana T. Aben-Athar Kipman veio ao mundo assim, numa manhã de fevereiro de 1948. Hoje, ela é embaixatriz do Brasil no Haiti. Mas do dia do nascimento até a vida que leva hoje, longe do Brasil, muita coisa aconteceu. Roseana é dessas mulheres que inspiram. E o Vila Sucesso conversou com ela, direto do Haiti, e agora divide a história dela com você.

O lugar onde Roseana mora se encontra hoje num estado que ela mesma chama de "paz armada". Muitos progressos já foram feitos na região, mas a miséria é enorme. "O desemprego beira os 75%, o analfabetismo 80%. Pelo menos 10% da população têm AIDS e ainda há muito por fazer", diz. Mas por que, aos 61 anos, ela resolveu morar numa área de conflito?

O marido de Roseana, Igor Kipman, foi designado para o cargo de Embaixador do Haiti pelo presidente da República. E, desde então, os dois moram por lá. Por causa da situação do país, Roseana só anda de carro blindado e tem um contingente de 13 fuzileiros navais que ficam 24 horas por dia com ela. "Eu os chamo de anjos da guarda e os amo de paixão. Como não amar a alguém que voluntariamente coloca a vida em troca da minha e protege o meu corpo com o seu?"

As atividades de uma embaixatriz se resumem normalmente a cuidar da casa e receber convidados. O que parece pouco pode ser uma atividade bem importante. Isso porque as festas do Itamaraty são conhecidas como o ‘terceiro turno’. É nesse ambiente, preparado pelas esposas, que se fazem os contatos e se costuram acordos. "É quando representamos o nosso país e mostramos para os outros diplomatas e estrangeiros, de um modo geral, a cultura do Brasil. São festas trabalhosas e se engana quem vê nelas apenas o glamour e o luxo. Três horas de festa perfeita equivalem a mais de uma semana de trabalho duro que vai desde a escolha do cardápio até a toalha que vai enfeitar a mesa", conta.

Uma embaixatriz para se inspirar

Roseana T. Aben-Athar Kipman e o marido Igor Kipman.

Essa "função" de manter a casa em ordem não é remunerada e não equivale a ter um cargo. "Sou apenas e tão somente a esposa do big boss", brinca. Mas Roseana é modesta. Por lá, ela faz muito mais do que isso. Há mais de 40 anos, trabalha com o desenvolvimento social. Morando numa região com tanta carência, a história não podia ser diferente. Ela levanta antes das 6h da manhã e só dorme quando o relógio bate meia-noite. Nesse dia longo, ensina português para os haitianos, de forma voluntária, no Centro de Cultura Brasil-Haiti. Além disso, trabalha num centro de nutrição, em Cité Soleil. "Três ou quatro vezes por semana recebo pessoas para almoçar ou jantar e nas outras noites restantes vou aos jantares oficiais. Além disso, bordo, leio, respondo meus e-mail, visito orfanatos, templos católicos e evangélicos e participo de ações sociais lideradas pelo Exército ou Marinha Brasileiro", conta. Outra coisa que ocupa parte do dia de Roseana é o mundo virtual. Ela não deixa de sempre atualizar páginas como Facebook, Orkut e Twitter. Entre os esportes preferidos, muita aventura. Ela gosta de rafting, rapel, arborismo, caiaque e montanhismo. Além disso, é encantada pelo movimento escoteiro pelo mundo - do qual é dirigente há 42 anos.

Roseana também é apaixonada por outra coisa: a leitura. Ela tem mais de 2 mil livros que carrega para onde vai e diz que lê de maneira compulsiva. Se gosta de um autor, dá um jeito de ler tudo que ele tiver escrito. "Não me lembro de estar sem um livro na mão. Como releio meus livros, nunca passo a diante, não os empresto para serem lidos fora da minha casa e não me desfaço deles. Assim é que logicamente a minha biblioteca foi crescendo, crescendo e continuará crescendo enquanto eu for capaz de ler", conta.

Se ainda sobra tempo para mais alguma coisa? Claro que sobra. Roseana é mesmo uma mulher de paixões. Além dos livros, esportes, ajuda ao próximo, ela adora tudo que envolve a série de histórias de StarWars. "Essa paixão antiga começou em 1977, quando uma imensa e triangular nave passou por cima da minha cadeira do cinema. Desde então, o mundo mudou para mim", fala. "Muitas pessoas pensam que StarWars é um conjunto de seis filmes, mas é muito mais. São milhares de histórias tão boas como aquela e que estão contadas em cerca de 300 livros (tenho todos), inúmeras revistinhas (tenho todas) e vários games e RPGs".

Uma embaixatriz para se inspirar

Quando a gente pensa que a história de vida dessa mulher não tem mais nada de especial, descobre que ela tem três filhos, que moram longe dela, dois nos EUA, em Miami, Seattle, e uma em Brasília. Além disso, três netos que adora. Fala cinco idiomas de maneira fluente [português, inglês, espanhol, italiano e francês] e compreende bem o idioma local do Haiti, o creole. Viajou pelo mundo a vida toda e acha que casa mesmo é onde se mora - por isso nunca se sentiu longe do próprio lugar. "Quanto aos costumes, ou a gente se adapta, ou morre. Eu me adapto sem maiores problemas ou dores".

Roseana está casada há 40 anos e diz que ela e Igor se amaram já desde o primeiro encontro. "Somos diferentes e acho que é isso que faz com que a gente se complete tão bem. Como ele trabalha no Itamaraty, ela precisa acompanhá-lo aonde vai. E pode ter certeza que ela vai, bem feliz. "Somos amigos, amantes, cúmplices", afirma. Os dois foram para o Haiti, localizado no mar do Caribe, na fronteira com a República Dominicana, para ficar três anos. Estão lá metade desse tempo e, conforme explica Roseana,embaixadores brasileiros podem ficar fora do país por 10 anos, em dois ou três postos consecutivos. "Ficaremos estes dez anos fora do Brasil, mas onde, ainda é muito cedo para saber. E isso não importa para mim. Estarei feliz com o homem a quem amo e isto me basta".


A mulher que vive a vida da melhor maneira que pode, diz que não acredita em receitas prontas de felicidade - e sim em vivência pessoal e experiência. "O que pode ser bom para mim pode ser péssimo para outra pessoa. Eu sou uma mulher feliz, que ama e que é muito amada. Eu escolhi ter a felicidade como modo de vida e todo o meu esforço é para isto. Por isto sirvo ao próximo, pois para mim não há maior felicidade do que a felicidade de haver feito o meu melhor possível para deixar este mundo melhor do que eu o encontrei.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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