Trajeto para o trabalho deixa mulheres cada vez mais inseguras

Insegurança no trajeto para o trabalho

Um dos problemas que assola a população que anda de ônibus - principalmente o público feminino - é a insegurança. Segundo uma pesquisa batizada de "Retratos da Sociedade Brasileira: Locomoção Urbana", realizada pela CNI - Confederação Nacional da Indústria, 55% das mulheres disseram ter medo de assaltos ou de acidentes durante o trajeto de ida ou de volta do trabalho ou da escola para a casa.

"A diferença entre os sexos é pequena, já que o mesmo medo foi apontado por 48% dos homens, mas as mulheres apresentam mais fragilidade quando abordadas. Sem contar que a superlotação dos transportes públicos faz com que elas passem por situações constrangedoras", comenta Isabel Mendes de Faria Marques, economista do CNI. Foram ouvidas mais de 2.000 pessoas em 141 municípios.

De uma maneira geral, sempre ou na maioria das vezes, mais de 50% dos entrevistados disseram ter medo de assaltos ou de acidentes durante o trajeto. "Todas as regiões do país apresentam esse problema. Desse modo, o trabalhador sofre uma forte carga de estresse antes de chegar ao trabalho e na volta para casa. É uma expectativa negativa que pode influenciar no desempenho profissional", alerta Isabel.

A pesquisa da CNI - Confederação Nacional da Indústria foi realizada com o objetivo de saber quanto tempo o brasileiro leva para se deslocar de casa para o trabalho ou para a escola. De acordo com os resultados, 43% dos brasileiros levam em média 30 minutos, enquanto 27% precisam de mais de meia hora e 24% mais de 1h por dia. Dos entrevistados, 15% gastam entre 1h e 2h, 5% entre 2h e 3h e 2% entre 3h e 4h. Apenas 2% levam 4h e 6% não souberam mensurar.

De uma maneira geral, os meios de transporte mais utilizados são ônibus (34%), caminhada (24%) e automóvel (16%). Outro dado interessante é que nos municípios com até 20 mil habitantes, apenas 12% da população gasta mais de 1h para se deslocar. Nos municípios com mais de 100 mil habitantes, esse percentual sobe para 32%.

E mais: nos locais com menos habitantes, o segundo transporte mais utilizado é a caminhada, totalizando 44% da população. Somente 19% recorrem ao transporte público, ao contrário de cidades com mais de 100 mil habitantes, onde a parcela da população que usa ônibus é de 79%.

"Pela nossa avaliação, os moradores das cidades menores optam pela caminhada porque acham a passagem cara demais, não têm acesso (o ônibus não passa perto de casa ou do trabalho) ou então porque os horários dos ônibus não coincidem com os da entrada e saída do trabalho", comenta Isabel. "Como esses trabalhadores precisariam acordar muito mais cedo ou chegar atrasado para usar o ônibus, eles preferem caminhar".

Para a parcela da população que descarta o ônibus, uma das condições impostas para começar a inserir este meio de transporte na rotina seria baratear a passagem. "Dados recentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), revelam que a tarifa do transporte público no Brasil subiu 60% acima da inflação nos últimos 15 anos", lembra Isabel.

O levantamento constatou ainda que o tempo de locomoção tem relação com a renda da população: 31% dos brasileiros que possuem renda familiar entre cinco e dez salários mínimos gastam mais de uma hora para se deslocar. Já entre a faixa que apresentou renda familiar superior a dez salários mínimos a porcentagem sobre para 37%.

Se analisarmos o uso do transporte público por região, podemos deduzir que o Sudeste lidera com 71%, contra 45% no Norte/Centro-Oeste e 48% no Sul. Em compensação, 24% dos entrevistados consideram o ônibus ruim ou péssimo, a pior avaliação entre todos os meios de transportes citados na matéria. As avaliações positivas estão se concentram no Sul (55%), nas capitais (36%) e nas cidades com até 20 mil habitantes (55%).


Na avaliação geral da economista, boa pare do orçamento público vai para novos viadutos e estacionamentos, deixando de dar prioridade ao transporte público. "Cada vez mais se pensa no individualismo, no veículo particular. Se não houver mudança de visão, o futuro não será bom", diz. "Além disso, é preciso criar políticas específicas, pois cada região tem suas necessidades", finaliza.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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