Tradutores e intérpretes no mercado brasileiro

Tradutores e intérpretes no mercado brasileiro

Foi-se o tempo em que o mercado para tradutores e intérpretes era restrito no Brasil. Hoje, a carreira pode ser uma ótima opção para quem gosta de línguas estrangeiras, se dá bem com o português e está disposto a aprender sobre novas culturas. O motivo para que essas profissões estejam em alta é simples: nos últimos anos, o Brasil ganhou importância no cenário mundial. A economia aquecida e o mercado consumidor atraem investimentos de empresas estrangeiras, assim como eventos esportivos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, por exemplo.

Pérsio Burkinski é intérprete há mais de 20 anos. E o início da carreira foi quase por acidente. "Não fui eu que escolhi a profissão; foi a profissão que me escolheu", conta. Tudo começou quando Pérsio viajou os Estados Unidos. Formado em Administração, ele trabalhava numa empresa de Importação e Exportação. "Certo dia, um homem português ia ser julgado e, como os brasileiros que moravam lá não tinham fluência em inglês e eu tinha, fui convidado a traduzir o julgamento".

Assim, o administrador pegou gosto pelas traduções. Foi oficial da ‘Corte’ da cidade de Nova York por quatro anos. Depois, morou em países da Europa e começou a fazer traduções escritas como freelancer. Na Itália, cursou a segunda faculdade, Língua Italiana, e a pós-graduação em Tradução. Em Portugal, chegou a trabalhar numa agência de traduções, onde dava aulas.

Quando retornou ao Brasil, a experiência de 14 anos fora do país, a vivência com traduções e o interesse na área levaram Pérsio a montar sua própria empresa, em 1997. Ele implantou por aqui a "Millennium Traduções e Interpretações" que é, na verdade, uma cooperativa que hoje conta com 50 membros.

"Foi difícil conquistar clientela no começo, porque a demanda para serviços de tradução não era muito grande. Tivemos que nos empenhar, conversar com pessoas conhecidas. Depois de alguns anos, já tínhamos nossos clientes fiéis e, hoje, estamos cheios de trabalho", comemora.

Perfil da profissão

Existe mais de uma atuação dentro da área de traduções. Normalmente, são chamados tradutores escritos aqueles que - como o nome já diz - traduzem textos. O intérprete também é um tradutor, porém tem experiência naquelas simultâneas (que precisam de equipamentos e cabines, pois são feitas ao vivo, em tempo real) ou consecutivas (que é realizada ao vivo, depois de cada trecho dito pelo palestrante).

O requisito básico para ingressar nessa carreira é o conhecimento profundo da língua materna e da estrangeira, já que a profissão não é regulamentada. Mas a coisa é mais complexa na prática. "O tradutor de textos precisa ter bom conhecimento do vocabulário da língua em estudo, das expressões, para não traduzir as coisas ao pé da letra", diz Mariane Fernandez, coordenadora da Millennium. Ela explica que um intérprete, além de acumular os requisitos acima, deve ter outras qualidades. "Nesse caso, a exigência é maior. O profissional precisa ser muito dinâmico, esperto, ter bastante vocabulário e conhecer a área a fundo. Ele deve ter postura, ser agradável e saber a hora em que pode falar, para não atrapalhar o palestrante".

Outro fator que faz a diferença na carreira de tradutores e intérpretes é a formação. "Além da faculdade, ele precisa de muita experiência e deve estar sempre pesquisando, porque pode ter que traduzir termos técnicos", fala a coordenadora. Isso porque muitos desses profissionais são chamados para atuar em áreas específicas, como na tradução de textos, palestras e congressos de como medicina ou engenharia.

A área também permite a realização de serviços como tradução de websites, de contratos e documentos oficiais - nesses casos, faz-se a tradução juramentada, realizada por profissionais que, submetidos a concurso público, executam operações que necessitem de fé pública -; implantação de softwares de multinacionais; acompanhamento a encontros políticos e corporativos e monitoramento de atividades turísticas.

O salário de um tradutor ou intérprete varia muito. No geral, os iniciantes recebem por volta de R$ 2000 mensais; já os mais experientes podem levar R$ 10 mil ou até mais, dependendo do idioma e da formação. Quem se especializou em idiomas menos conhecidos, como o russo, por exemplo, pode ser mais bem remunerado caso tenha alguns eventos por mês para realizar.

Apesar do cenário favorável ao crescimento do mercado, o setor enfrenta uma dificuldade: a carência de profissionais, em quantidade e qualidade. "É um problema crônico", decreta Pérsio. "Os obstáculos são ainda maiores quando a procura é por profissionais capacitados para atuarem em nichos específicos, como a área médica, por exemplo".


Mas, com esforço e dedicação, é possível construir uma bela carreira. A dica para quem está começando é não se limitar à faculdade e arrumar logo um estágio para treinar a parte prática. A bagagem pode ficar mais cheia até vendo filmes em outra língua ou viajando. Assim, o estudante vai ganhando experiência e crescendo nessa área que também cresce por aqui, em ritmo acelerado.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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