Carreira no terceiro setor

Carreira no terceiro setor

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No dia a dia das mulheres modernas o que mais falta é tempo. Um tempo precioso para conciliar os deveres domésticos com o trabalho, para cuidar melhor dos filhos, para ir ao salão de beleza, ao médico, ao supermercado, ou até para descansar. Quantas já não se questionaram também como seria bom ter tempo para se dedicar ao próximo, prometendo a si mesmas que no futuro isto ainda será posto em prática? Pois para muitas, ajudar pessoas e atuar profissionalmente com esse objetivo é a mais pura realidade. São elas as chamadas profissionais do terceiro setor.

Ninguém melhor para representar as mulheres desta área como Maria Rita Pontes, superintendente das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), a maior instituição filantrópica do país que, somente no ano passado, registrou 5,3 milhões de atendimentos médicos gratuitos.

Atualmente com 54 anos, ela ocupa o cargo há 18, liderando um complexo de saúde, educação e assistência social. Ao todo, na OSID, trabalham mais de 3.500 pessoas, entre celetistas e alguns voluntários.

Mas o fato mais interessante é que Maria Rita nunca teve interesse em assumir a instituição, que foi fundada por Irmã Dulce, sua tia. A superintendente é jornalista e trabalhava no Rio de Janeiro quando foi apontada por Irmã Dulce como sua sucessora na administração da entidade. Quando a religiosa ficou com a saúde debilitada, chamou pela sobrinha, que não conseguiu recusar a missão.

Leia a seguir a entrevista com Maria Rita Pontes e veja como é possível construir uma carreira no terceiro setor.

- Gostaria que descrevesse um dia de trabalho na OSID. Quais são as conquistas e desafios diários?

Maria Rita - Costumo chegar cedo, antes das 8h00. A rotina inclui reuniões de gestão com líderes e assessores já no primeiro horário. Costumo também fazer uma visita às unidades, aos pacientes, responder e-mails e dar telefonemas, bem como me informar sobre as notícias de saúde, economia e política do dia. A agenda inclui muitos compromissos externos. É comum surgirem demandas urgentes; por conta disso, não há uma rotina. Retorno para casa por volta das 19h, mas continuo a responder as solicitações por celular e e-mail.

Cada dia é uma oportunidade de servir. Entre tantos problemas e dificuldades, temos sempre a recompensa de receber a notícia de um paciente grave que ficou curado, uma cartinha de uma mãe agradecendo por tudo que foi feito pelo seu filho, um devoto de Irmã Dulce que alcançou uma graça. Outro dia, um menino de seis anos tetraplégico gravou uma mensagem de agradecimento pelo carinho e cuidado que recebeu durante a sua longa internação. Estava feliz porque retornava a casa, mas saudoso por nos deixar.

- Qual é o principal trabalho desenvolvido na OSID e como a senhora conseguiu fazer desta instituição filantrópica a maior do país?

Maria Rita - A OSID é hoje responsável por quase 50% do atendimento em saúde de Salvador, que é a terceira metrópole do país em número de habitantes. Ano passado, realizamos mais de 5 milhões de atendimentos, 14 mil cirurgias e temos quase 1.500 leitos hospitalares. Possuímos 17 núcleos que atuam em áreas que vão desde a pesquisa científica e o ensino médico até o atendimento a portadores de deficiência, idosos, alcoolistas... Outra frente muito importante é a área de ensino fundamental e profissionalizante que atende a cerca de 800 crianças e jovens no Centro Educacional Santo Antônio (CESA). A abordagem pedagógica é global e inclui oficinas de arte, informática, educação ambiental e ensino profissionalizante, além de suporte social, alimentação e assistência odontológica, tudo gratuito.

Quando Irmã Dulce faleceu, em 1992, nosso maior temor era que a OSID não conseguisse sobreviver sem seu carisma. O que nos manteve foi a fidelidade à missão de Amar e Servir. As pessoas costumam dizer que o maior milagre dela é a manutenção e o crescimento de sua obra. Nesses 18 anos sem ela, a OSID cresceu enormemente em número de atendimentos e diversidade de serviços, inclusive com a criação de novos núcleos como o Centrinho, que atende de forma multidisciplinar portadores de deformidades craniofaciais, o Centro de Pesquisa Clínica e o Hospital da Criança. Administramos também hospitais do Estado e centros de saúde do Município. Nós temos um modelo de gestão próprio, nada é terceirizado, somos 100% SUS e hoje a OSID é considerada a maior filantrópica do país na área de saúde.

- Com tanta dedicação ao trabalho, como concilia a vida profissional com a família?

Maria Rita - Sou casada, não tenho filhos, mas me sinto plenamente realizada com meus filhos do coração, inúmeros afilhados. Meus colegas costumam dizer que trabalho 24 horas e respiro a Obra, mas não descuido da saúde, não apenas do corpo, mas também do espírito. Com planejamento e força de vontade dá para ser feliz e ter paz conciliando as duas áreas.

- Sua formação é como jornalista. Gostaria que contasse como ingressou nesta outra carreira, como a sua vida mudou por causa disso.

Maria Rita - Formei-me em Jornalismo em 1976 e segui carreira até 1991, quando assumi a superintendência da OSID. Eu já era conselheira das Obras e, inicialmente, eu deveria ficar apenas até que Irmã Dulce se recuperasse. Quando assumi achava que voltaria a trabalhar como jornalista, mas logo tomei consciência de que isso não mais ocorreria e em 1992 assumi definitivamente a Superintendência. Foi complicado seguir um modelo de vida, de doação tão radical, como o de Irmã Dulce. A Obra estava vinculada ao carisma dela e eu era apenas sua sobrinha, sem experiência administrativa, ocupando a função de gestora. Na ocasião, lembrei de uma das longas conversas que tínhamos ao telefone, quando eu ainda morava no Rio. Ela relatava problemas operacionais ou dificuldades financeiras, mas nunca se desesperava. Eu descobri que o fardo de servir aos outros é muito mais leve do que se pensa. Eu tinha 36 anos e uma carreira que amava, sinto uma saudade boa, de boas lembranças, mas não me faz falta.

- Muitas mulheres gostariam de se dedicar ao trabalho social. Qual o primeiro passo para isso?

Maria Rita - Acredito que o primeiro requisito é entender o que significa se dedicar a um trabalho social. Não é algo que exija um tipo de dedicação ligada apenas à competência técnica, ao profissionalismo e à disposição para o trabalho. Você tem que ter em mente que está lidando com o que há de mais importante, que são pessoas, e pessoas carentes, carentes de afeto, de recursos materiais, de saúde, de educação, muitas vezes sem cidadania plena. Pessoas cuja necessidade de se sentirem dignas, cuidadas é muito maior do que a do cidadão médio. Se dedicar a este tipo de trabalho é se dedicar a essas pessoas, prover, servi-las em um cenário político e financeiro na maior parte do tempo adverso. Deste modo, é necessário ter consciência do que se vai enfrentar e estar integralmente disponível para isso. Se o desejo é algo que passa pela razão e pela emoção e se mantém, então o segundo passo é se qualificar, entender o cenário do setor, buscar parcerias, formar redes. Já existem bons cursos no país voltados para o terceiro setor que ensinam o caminho das pedras, pelo menos teoricamente.

- O trabalho nesta área é totalmente voluntário, ou é possível obter remuneração?

Maria Rita - O terceiro setor é um imenso guarda chuva que congrega instituições de perfis muito diversos. Na maior parte das entidades maiores o trabalho de gestão é remunerado. Na OSID temos um Conselho de Administração que fiscaliza as ações estratégicas e é voluntário, mas todo o trabalho diretamente ligado à gestão é remunerado.


- Para as mulheres que mantem o sonho de seguir uma carreira no terceiro setor, mas ainda não encontraram tempo ou o caminho para isto, qual é a sua mensagem?

Maria Rita - Escutem a voz do seu coração. As pessoas mais ocupadas sempre encontram um espaço nas suas agendas. Li num jornal de SP uma entrevista com um desembargador que na sua agenda apertada encontra tempo para tirar a toga e usar a simplicidade para alegrar as crianças internadas num hospital público. Não existe nada mais sublime que a doação ao próximo.

Por Adriana Cocco

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