Pesquisadora apaixonada pela profissão

Pesquisadora apaixonada pela profissão

Mônica Lopes Ferreira/ arquivo pessoal

A curiosidade e a paixão por um tema, combinados a uma boa dose de dedicação, podem mesmo ser a receita da realização profissional. Essa é uma das lições que tiramos da trajetória da pesquisadora Mônica Lopes Ferreira.

Ela trabalha no Laboratório de Imunofarmacologia do Instituto Butantan desde 2004. Mas o interesse e os estudos sobre peixes peçonhentos que provocam acidentes em seres humanos são mais antigos - desde os anos 1990. "Entre o final de 1995 e o início de 1996, eu estava de férias, em Maceió, quando descobri que um peixe, encontrado nas lagoas e rios daquela região, causava muitos acidentes em pescadores e banhistas. O assunto despertou, aguçou minha curiosidade", lembra Mônica.

Esse peixe é conhecido popularmente como "niquim". Ele pode ser encontrado em todo Norte e Nordeste do Brasil e pode causar dor, edema e necrose quando provocado. A pesquisadora descobriu então que existem mais de 800 mil espécies de organismos marinhos e, destas, menos de 5% foram até o momento foram estudadas.

Através das descobertas realizadas em seus estudos, Mônica observou que o niquim é um tipo de peixe bem complexo e possui um veneno diferente de outros. "Para estudá-lo, trilhei pela imunologia, bioquímica, farmacologia. A cada resposta, uma nova pergunta. Assim imagino que deva ser uma pesquisa científica, sem ponto final, a cada dia novas hipóteses, novas descobertas, um estudo cada vez mais multidisciplinar", lembra.

As pesquisas sobre o niquim deram a especialista o sentimento de aptidão para continuar estudando outros venenos. Ela passou a se dedicar especialmente a alguns tipos de peixe peçonhentos que são prejudiciais às pessoas - arraias, bagres e peixes-escorpião. "Dessa maneira, como costumo dizer: ampliei o aquário", brinca.

Mônica passou a maior parte da carreira dentro do Instituto Butantan, mas também teve a oportunidade de conhecer outros ambientes de pesquisa. "Ainda durante meu doutorado, fui fazer um estágio no Instituto Clodomiro Picado, na Costa Rica. Mais que o aprendizado de novas técnicas, esse estágio me possibilitou a experiência de conviver com outros pesquisadores e com eles aprender a fazer e planejar uma pesquisa científica", relata.

O resultado de tanto estudo e dedicação é a possibilidade de desenvolvimento de uma soroterapia que combata os venenos das espécies estudadas - que de fato está sendo elaborado pela equipe de Mônica. Trata-se de um soro experimental, desenvolvido a partir do veneno de niquim, bagre, arraia e peixe-escorpião. "Esse soro se mostrou eficaz na neutralização dos principais sintomas dos envenenamentos que estes peixes provocam", revela a especialista.

Apesar dos obstáculos para levar os estudos adiante e dar esperança para quem for lesado pelos venenos de niquim, bagre, arraia e peixe-escorpião, Mônica se sente realizada profissionalmente. "Vale a pena fazer o que lhe realiza, o que lhe dá prazer, o que lhe acrescenta. Eu sou feliz em ser pesquisadora. Gosto do dinamismo da profissão, de conviver como a possibilidade de elaborar hipóteses e trabalhar para comprová-las", assegura.


Mas e as dificuldades que existem na área de pesquisas em nosso país, como a falta de incentivo? "Dificuldades existem em qualquer lugar, em qualquer profissão, mas nada que nossos estudos, nossa determinação, nosso trabalho não consigam superar", completa a especialista.

Por Priscilla Nery (MBPress)

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