Pesquisa aponta a realidade das revendedoras porta a porta

Pesquisa aponta a realidade das revendedoras porta

A pesquisa de mestrado realizada pela socióloga aponta que revendedoras porta a porta sofrem com a informalidade e precariedade das condições de trabalho. Somente a Natura possui em seu quadro de revendedoras cerca de 1 milhão de mulheres, a maioria atuando de maneira informal.

Segundo a tese de doutorado apresentada recentemente ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp pela socióloga Ludmila Costhek Abílio, além de não ter qualquer vínculo empregatício ou direito trabalhista, esse exército de pessoas, que equivale à população de Campinas (SP), ainda assume uma série de riscos, entre eles o financeiro, para desenvolver uma atividade que raramente é reconhecida pela sociedade como um trabalho.

O estudo orientado pela professora Angela Maria Araújo, traz abordagem original ao analisar aspectos relacionados à informalização e precarização do trabalho dentro de um segmento denominado Sistema de Vendas Diretas.

Ludmila escolheu a Natura para desenvolver a pesquisa por se tratar de uma empresa brasileira multinacional líder de mercado e de reconhecido sucesso comercial. A marca está presente em sete países da América Latina e também na França.

Conforme constatado a relação das mulheres revendedoras com a empresa é ambígua, são tratadas como revendedoras e consumidoras. "Muitas dessas consultoras começam a vender os produtos para poder consumir. Ou seja, parte do que seria o lucro delas é revertido em itens para uso próprio", afirmou. O estudo mostra ainda que para a empresa, o que acontece entre as vendedoras e seus clientes não a afeta de fato.

Um aspecto curioso apurado pela pesquisadora refere-se ao diversificado perfil socioeconômico dessas mulheres. Ludmila entrevistou desde faxineiras até mulheres de altos executivos, passando por professoras, donas de casa e até uma delegada da Polícia Federal, que vende os cosméticos no prédio da própria corporação, ao longo do expediente.

Algumas mulheres vendem para poder consumir, outras o fazem como complemento ao orçamento doméstico. Algumas vendem muito e alcançam bons ganhos, mas não são maioria. No ano de 2009 a empresa divulgou que 22% das mulheres faziam dessa a sua ocupação principal.

A extensão do tempo de trabalho e as condições precárias de trabalho, segundo a autora da tese, têm se tornado cada vez mais comuns, não apenas em relação à companhia tomada para estudo. "Estamos cada dia mais proletarizados", sentencia ela. Em relação especificamente às consultoras da Natura, há outro fator que concorre para a precarização do trabalho. Toda a atividade é desenvolvida na informalidade.

Ludmila afirma que essas mulheres não são vistas como trabalhadoras pela sociedade. "Segundo a empresa, são despachadas cerca de 40 mil encomendas por dia. São essas revendedoras que substituem as lojas físicas e os funcionários contratados que atuariam nos pontos de venda. Isso sem contar o marketing gratuito que esse exército de pessoas faz para a empresa, por meio da divulgação boca a boca, porta a porta", ponderou.


"A conclusão a que cheguei é que a exploração do trabalho não está mais em discussão. A questão foi naturalizada. A sociedade despolitizou o tema, e é possível entender historicamente isso. A ameaça do desemprego acabou por legitimar a exploração do trabalho. As injustiças em torno do trabalho já não merecem reflexão. O medo de ficar fora do jogo desmobilizou as categoriais profissionais. O que importa é estar trabalhando, segundo esse entendimento. Entretanto, se queremos fazer uma análise crítica em relação a esse estado de coisas, temos que colocar tudo isso em debate", defendeu a pesquisadora.

Por Catharina Apolinário

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