Paixão versus relevância

Apaixonar-se: existe algo melhor do que isto? Para milhões de habitantes deste planeta, poucas coisas são mais gratificantes e estimulantes do que este sentimento supervalorizado e pouco compreendido, cujos efeitos sobre nós, pobres mortais, vão da pura magia até curas milagrosas. Afinal, há quem pense que este prozac da alma, ao nos encher de alegria e de esperança, ajuda-nos a vencer males terríveis. E muita gente garante: não existe nada melhor para a depressão e para a dor da rejeição do que uma nova paixão!

Mas, para pesquisadores do mundo do trabalho, os efeitos deste sentimento cantado em prosa e verso desde os tempos remotos não se limitam às emoções, suspiros e palpitações próprias dos amantes. Vão mais longe e seus benefícios - segundo esses estudiosos - também podem ser comprovados no exercício da profissão.

De fato, vários livros e artigos têm sido escritos sobre a importância da paixão para a carreira dos indivíduos - não a paixão amorosa entre duas pessoas e, sim, uma outra, igualmente importante: a de uma pessoa pela sua atividade profissional. Resumindo, o que todos garantem é que a paixão constitui um fator determinante para o sucesso e o enriquecimento pessoal - ou seja, se alguém trabalhar no que gosta, terá muito mais chances de ficar milionário! Será?

Talvez isto seja verdade para uma elite intelectual, social, cultural e econômica, que conta, a seu favor, com uma formação abrangente e o suporte de bens pessoais ou familiares. Mas o que acontece com uma pessoa que não tem liberdade para seguir o seu sonho e fazer o que gosta, seja porque não recebeu formação específica, seja porque as condições de vida não permitem ousadias maiores? Estaria irremediavelmente condenada à pobreza e a uma vida insípida? Como podemos falar em paixão para alguém que se vê obrigado a trabalhar à beira de um forno ou nos andaimes de uma construção, debaixo de sol e de chuva? Ele pode perguntar, irritado, com toda razão: "além de ser pontual, não faltar, trabalhar pesado, ganhar pouco e agüentar o mau humor do meu chefe, vou ter de gostar muito do que faço?" Para pessoas como esta, cujo sonho maior é a sobrevivência com dignidade, o discurso da paixão aliada à profissão vai realçar as dificuldades, destacar o que não têm - ou acham que não têm. E eles se perguntam intimamente: "será que vou ser um pouquinho feliz, algum dia? Tenho alguma chance de alcançar o sucesso?"

Eu responderia sim a essas perguntas, sem medo de errar, porque acredito que a palavra-chave na relação indivíduo-profissão não é paixão e, sim, relevância. Compreender a importância social e pessoal do que fazemos é o primeiro e maior passo para a felicidade, que se completa com o reconhecimento do próprio valor e a aceitação plena da nossa individualidade. Neste sentido, não precisamos nos apaixonar pelo que fazemos, mas é essencial associarmos a nossa vida profissional a um bem pessoal e social.

Para o peão da obra, por exemplo, a relevância de seu trabalho duro pode residir não na função em si, mas no fato de que isto possibilita dar educação ao seu filho - o sorriso do garoto e seu desenvolvimento saudável faz a vida do peão valer a pena e justifica todos os sacrifícios. No caso da cozinheira de uma amiga, os aplausos que recebe pelos jantares que prepara a deixam feliz, mas não se comparam aos da enorme platéia que a vê desfilar com a escola de samba de seu coração. É para isto que Zezé (este é o seu nome) trabalha o ano todo. Não, não é pouco, nem irrelevante! Não, não significa que ela não tem ambição ou se contenta com pouco! Ela é cozinheira, sim, e de mão cheia - sente orgulho por isso. Mas é, acima de tudo, sambista e ritmista, membro da bateria, uma líder em seu meio, com a vantagem de que acredita que contribui para a perpetuação de uma tradição cultural que agrega beleza e dividendos à cidade. E neste caso, com toda a propriedade, podemos dizer que Zezé é uma pessoa realmente feliz.

Acho que o segredo da sua felicidade reside no fato de que Zezé valoriza o que faz, acredita no que faz e... diverte-se fazendo! Para ela, ganhar dinheiro não é sinal de sucesso, mas ser campeã do carnaval paulista, isto sim, é o máximo! É o que basta! Mas reconheço que isto não é suficiente para muita gente. Infelizmente, conheço poucas Zezés e muitas Marias e Joãos que vivem à procura de meios milagrosos para chegar lá - e por lá entenda-se sucesso, dinheiro e reconhecimento social.

Acredito que a meta - o lá - é importante, mas nada se compara ao caminho que percorremos e às experiências que adquirimos ao trilhá-lo. O melhor lugar não está no futuro, num ponto desconhecido: o melhor lugar é aquele no qual estamos e que nos faz feliz. "Para você, Leila, que chegou lá, que faz sucesso, é fácil falar!", comentam algumas pessoas. Mas o meu caminhar continua - assim como o caminhar de todos os seres vivos - e certamente vai me levar a outros lá, como já aconteceu antes. Fui fisioterapeuta, fui professora; hoje estou palestrante. Para mim, isto significa que amanhã posso ser outra coisa e estar em outro lugar, sem ter fracassado nas atividades anteriores. Significa, ainda, que aceito o fato de que a vida é um processo em constante mutação e que devemos deixá-la fluir - o que não significa esquecer as metas, cruzar os braços e ser levado pelos acontecimentos.


Na verdade, quando compreendemos e respeitamos o caráter dinâmico da vida, podemos finalmente dizer que estamos preparados para o que der e vier, transformando fracassos, festejando sucessos, alterando rotas, fazendo até o que não gostamos! Apaixonados, sim, mas pela vida e por aquilo que somos. E isto está ao alcance de qualquer um: Zezé, Maria, João, Leila e você.

Colunista do Vila Sucesso e Vila Equilíbrio, Leila Navarro é palestrante motivacional e comportamental, além de ser empresária e Presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Capital Humano.

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