Padrões Corporativos - Onde chegaremos com isso?

Como está bem claro na assinatura dessa coluna, sou um atento observador do universo corporativo. Tento absorver o máximo possível sobre o assunto, a partir da leitura de quase tudo o que é publicado a respeito, ou na vivência do dia-a-dia. Converso sempre com muita gente, analisando pontos de vista, convivendo com opiniões discordantes, trocando informações.

Ao longo do tempo fui sendo tomado por um sentimento inquietante, que nascia sempre quando me defrontava com as exigências comportamentais impostas aos executivos, seja no processo de sua contratação, na sua performance cotidiana, ou no seu desempenho em ocasiões sociais. No meio de tudo isso sempre imaginei um profissional acuado, desesperado em tentar corresponder a todas as expectativas depositadas, observando com aflição a sua cotação na bolsa de valores da empregabilidade. Com o tempo e diante de tanta pressão, sempre pensei, essa pessoa será mais dedicada a representar um papel ou personagem do que de fato viver a sua condição plena e verdadeira.

E é muito natural que seja assim, afinal de contas o que está em jogo é o ativo da capacidade de se manter empregado, no atual ou no futuro emprego.

Mas ao mesmo tempo fico pensando nas empresas, precisamente sobre qual seria o verdadeiro benefício em meio a tudo isso, e nos impactos em sua administração.

Conheço uma executiva que mantém a seguinte resposta pronta "Hoje quando precisei enviar um material para um cliente, optei por fazê-lo por e-mail, evitando assim a impressão de papel e com isso preservei o meio ambiente" sempre que questionada pelo consultor contratado para desenvolver uma consciência sócio-ambiental entre os colegas de trabalho, sobre sua última ação adotada em prol da preservação ambiental. E pior, outros colegas emitem o mesmo tipo de resposta.

Em resumo, ela atendeu a expectativa depositada, o consultor preencheu o relatório onde o conjunto de informações refletia um engajamento da equipe pela causa, deixando a direção feliz e realizada. Será mesmo?

A mesma pessoa me relatou que quando vai ao chefe apresentar um problema grave ou situação aflitiva cuja participação dele seja imprescindível, escuta como resposta: "Espero de você pró-atividade! Não me venha com problemas". O que ela passou a fazer quando tem um problema que não pode resolver e depende da atuação do chefe? Ela simplesmente não relata mais, e é claro, o problema permanece lá, intacto escondido embaixo do tapete.

Conheço casos de pessoas que carregam um recorte contendo as últimas dicas de comportamento, para serem seguidas durante as comemorações de fim de ano na empresa. Coisas como, "evite emitir opiniões muito assertivas", ou, "sorria sempre e faça um breve aceno com a cabeça demonstrando entendimento" (mesmo que não tenha conseguido escutar nada).

Num mundo de arrasadora competitividade empresarial e gigantescos desafios diários, de inovações que se tornam obsoletas antes mesmo de serem totalmente conhecidas, precisamos mesmo de bonecos? Ou seria melhor gente de carne e osso, com qualidades abundantes e defeitos a flor da pele, para que juntos possamos evoluir e aprender? Onde isso vai nos levar? Vou tentar responder.


Essa idealização toda nos transformará em atores eternos da vida, perdendo as referências, sem histórias verdadeiras para contar aos netos, a não ser sobre as nossas representações. Então ele perguntará divertido. Vovô, vovó, você trabalhava no teatro? Resposta: (Constrangido) "sim, pode se dizer que sim".

Gustavo Chierighini, atento observador do universo corporativo, é fundador e publisher da Plataforma Brasil, especializada em informações e conteúdos de inteligência empresarial. www.pbrasilnet.com.br

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