O que as empresas querem de você

Estão em alta qualidades como criatividade, afetividade, generosidade e intuição, que todos nós, sem exceção, possuímos e que muitas vezes se expressam em atividades banais.

Acho espantosa, por exemplo, a extraordinária facilidade com que algumas pessoas recebem uma visita inesperada para o jantar. São capazes de fazer uma festa com uma panela de feijão, alguns ovos, duas ou três batatas e uma xícara de arroz. A técnica de "por mais água no feijão", é, para mim, uma demonstração clara de criatividade doméstica - assim como muitos dos truques que nos acostumamos a fazer em casa constituem soluções dignas de alguns poucos experts em vencer desafios. Se pensarmos bem, nos daremos conta de que, se lidamos com o inesperado em nossa casa, podemos fazer o mesmo em nossa vida profissional.

Uma dona-de-casa, por exemplo, abriu um pequeno negócio. Como era inexperiente, simplesmente procurou agir como se estivesse controlando o orçamento doméstico, o horário dos filhos, as roupas do marido. Deu certo. Mesmo sem noções de administração e ignorando os modelos modernos de gerenciamento, ela deixou que emergissem sua criatividade, sua experiência de vida, seu espírito empreendedor e seu bom senso.

"Mas certamente ela tinha dinheiro, tempo e pouca ambição", talvez comentem os desmancha-prazeres. Minha experiência diz exatamente o contrário: ela tinha um objetivo, não teve medo de tentar e colocou em prática o que sabia - e que muitos não valorizam.

Charles Handy, que se autodenomina filósofo social, acredita que a partir de agora as pessoas devam assumir maior responsabilidade por si próprias e estabelecer propósitos de vida. Segundo ele, a tendência é as empresas trabalharem com apenas metade dos funcionários a que estão habituadas. A outra metade será constituída do que ele denomina "trabalhadores de portfólio", ou seja, especialistas em determinada área que vendem suas competências profissionais a várias organizações. Essa situação levará, provavelmente, à criação de mais empresas especializadas em marketing pessoal, que farão a ligação entre as necessidades do mercado e a oferta de competências.

Handy também acredita que devemos nos preparar para ter várias carreiras, nos conscientizar de que a era do emprego seguro acabou e assumir a responsabilidade de criar uma sociedade melhor, mais justa, e não apenas maior ou mais rica. Precisamos nos levar mais a sério, investir em nós mesmos, sem achar que se trata de um caminho aberto pelas empresas apenas para obter maior comprometimento dos seus funcionários ou de uma manifestação egoísta nossa, ditada pela necessidade de levar vantagem em tudo.

Você já percebeu como temos uma tendência a criticar os mais esforçados e aplicados, aqueles que, na gíria escolar, costumávamos chamar pejorativamente de cê-dê-efes? Nada mais preconceituoso e injusto, pois são pessoas que se dedicam a investir, com consciência, no único capital que efetivamente lhes pertence: elas mesmas. Afinal, na empresa Ser Humano S.A, você é o capital, a marca, o produto e o serviço - uma verdade tanto para o autônomo quanto para o empregado. Em qualquer das situações, vencerá quem tiver os atributos e um estilo de vida compatíveis com os novos tempos.

Faça de conta agora que sou uma espécie de mensageira de paz entre você e a organização. Minha função nesse sentido é facilitar o diálogo entre essas duas partes tradicionalmente antagônicas, aparando arestas, explicando o que uma às vezes não consegue dizer à outra. A título de exemplo, examinemos, primeiro, quais as qualidades - ou competências - exigidas por algumas empresas importantes na contratação de um profissional.

XEROX

Captação de conhecimento

Cultura geral

Educação

Boa formação familiar

Espírito empreendedor

Dinamismo

Trabalho em equipe

Flexibilidade

Formação acadêmica compatível

Conhecimento de idiomas

Conhecimento de microinformática

Alguma experiência internacional

MICROSOFT

Conhecimento técnico de informática

Habilidades comerciais e administrativas

Conhecimento e visão estratégica de mercado

Smart (no sentido de esperteza)

Sensibilidade

Inteligência

Criatividade

Energia

Independência, mesmo em grupo

Raciocínio e respostas rápidas

Dinamismo, com nível de liderança

Percepção do meio ambiente, de tal forma a analisar e tirar conclusões

ITAUTEC

Talento

Criatividade, espírito inovador, energia, transparência e abertura para ouvir

Flexibilidade

Abertura para mudanças

Disposição para trabalhar em diversas áreas

Capacidade para acumular funções

Capacidade de se relacionar facilmente com os outros

Empreendedorismo

Cultura geral

Formação acadêmica

Conhecimento de inglês

Conhecimento de informática

Caráter

PETROBRÁS

Conhecimento técnicos

Capacidade de trabalho em equipe

Empreendedorismo

Flexibilidade

Gosto pela pesquisa

Cultura geral

Dinamismo

(Fonte: Revista T & D)

Isso é o que as organizações querem de você! Com base no exame cuidadoso das competências exigidas por essas empresas, pode-se concluir muito. Por exemplo: possivelmente já temos muitas dessas qualidades - caráter, transparência, dinamismo, criatividade, etc. Elas não são aprendidas na escola; fazem parte da herança familiar ou do nosso estilo de vida. Portanto, você não é assim tão despreparado para o mercado de trabalho, e encontrar a empresa certa pode não ser tão difícil quanto imaginava. Precisa apenas refinar e valorizar o que já se sabe e se esclarecer sobre alguns pontos do diálogo empresa/profissional.

Uma sugestão: faça, agora, uma lista do que você quer das organizações.

Difícil Você sabe muito bem? Depende? Sim, tem razão, depende. Depende de você saber o que quer e o que não quer. Depende de você saber sobre sua missão. Para alguns, talvez, essa seja uma situação bem resolvida, mas para a maioria dos brasileiros, de acordo com o que tenho pesquisado, não é.

Colunista do Vila Sucesso e Vila Equilíbrio, Leila Navarro é palestrante motivacional e comportamental, além de ser empresária e Presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento do Capital Humano.

Comente